Respondendo a mais um desafio, trago para vocês mais uma análise de uma música brega, que ficou bem conhecida pelo filme Lisbela e o Prisioneiro. Eis a letra e a música na versão do Caetano Veloso e na versão do próprio autor Fernando Mendes.
Análise brega-lírica da música “Você não me ensinou a te esquecer”, de Fernando Mendes
Mais uma música brega de trabalho primoroso e que fica esquecida pelo preconceito com o ritmo. “Você não me ensinou a te esquecer” é só uma das belas canções escritas por Fernando Mendes, tais como “Cadeira de Rodas”, “Sádico Poeta” (vale a pena escutar essas duas também) e muitos outros.
Mais uma música brega de trabalho primoroso e que fica esquecida pelo preconceito com o ritmo. “Você não me ensinou a te esquecer” é só uma das belas canções escritas por Fernando Mendes, tais como “Cadeira de Rodas”, “Sádico Poeta” (vale a pena escutar essas duas também) e muitos outros.
Na verdade, de vez em quando ele repete muito um assunto; por exemplo, nessa “Cadeira de Rodas” ele sempre via a menina na porta da casa dela, quando, segundo ele, era o único momento de alegria dela, mas depois ela sumiu e vocês escutem o resto. Com essa história de ver a menina na frente da casa, ele tem outras que são: “A Menina da Calçada”, “A Menina da Janela”, “Amando na Calçada”. Ele também tem umas histórias que parecem coisas mal resolvidas, como paixão por professoras e por meninas de 14 anos (quando ele também menor de idade, não é pedofilia, não!).
Interessante mesmo é que ele, apesar do que mencionei acima, diversifica muito suas músicas, parecendo até que a intenção era mesmo atingir vários assuntos e chegar de alguma forma no calo de todos os ouvintes – daí a entrega de seus apreciadores à bebida. Ele fala de conquista, paixão, traição, construção de família feliz, gravidez, amor platônico, amor doentio, escravizar-se e libertar-se de um amor e mais diversos assuntos e em diferentes personalidades e maturidades de narradores. Se fosse um contista ou romancista, suas histórias e personagens seriam muito bem construídos.
Mas, vamos à música que escolhi para detalharmos, posto que é de uma complexidade lírica linda, e que é devidamente conhecida graças à Caetano Veloso, que regravou-a magnificamente.
“Não vejo mais você faz tanto tempo/ Que vontade que eu sinto/ De olhar em seus olhos, ganhar seus abraços/ É verdade, eu não minto” - aqui começa a explanação da situação, já de cara. Os primeiros versos já começam a primeira curiosidade, pois, aparentemente, o primeiro está desconectado sintaticamente do resto da estrofe, mas semanticamente está totalmente ligado. Inclusive essa falta de conexão acentua a situação de aflição do eu-lírico. Curioso também é o último verso, dessa estrofe, que chega a ser cômica, mas que acarreta uma sinceridade profunda.
“E nesse desespero em que me vejo/ Já cheguei a tal ponto/ De me trocar diversas vezes por você/ Só pra ver se te encontro” - nessa estrofe é perfeitamente perceptível a entrega que um homem pode fazer a um sentimento. “De me trocar diversas vezes por você” é, talvez, o verso mais complexo deste poema, que abre margem para diversas interpretações, mas eu prefiro compreender como um simples delírio de saudade.
“Você bem que podia perdoar/ E só mais uma vez me aceitar/ Prometo agora vou fazer por onde nunca mais perdê-la” - já nesses versos, confesso não ver nada demais. Mas importante ressaltar os termos geralmente utilizados na fala e não tanto na escrita, como por exemplo o começo dessa estrofe. Além, também, da incrível sonoridade que há na poesia. Tudo bem que é uma música, mas não é qualquer letra que as palavras caminham em nossa mente tão maciamente.
“Agora, que faço eu da vida sem você?/ Você não me ensinou a te esquecer/ Você só me ensinou a te querer/ E te querendo eu vou tentando te encontrar” - chegando ao refrão, percebam: não dá para cantar sem fechar os olhos! Isso se deve a carga emotiva que há nesses versos. Uma pergunta emblemática, que desarmaria a pessoa mais fria; seguido da resposta em grande estilo e que ainda retoma o verso complexo no qual o autor confunde-se com a pessoa amada para tentar encontrá-la.
“Vou me perdendo/ Buscando em outros braços seus abraços/ Perdido no vazio de outros passos/ Do abismo em que você se retirou/ E me atirou e me deixou aqui sozinho” - no decadentismo, o narrador cai na boemia para afogar as mágoas – qualquer semelhança com o público-alvo das músicas bregas talvez seja só coincidência... Aí vem uma sequencia de pretéritos perfeitos que aceleram o ritmo dos versos e, consequentemente da música: artifício maduro e eficaz para acabar um texto em grande estilo. Encerrando com a velha e querida e eterna solidão; completou-se então, todos os elementos necessários para uma perfeita música brega!
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ESCUTANDO NO MOMENTO: Como é grande o meu amor por você - Nara Leão
LENDO NO MOMENTO: A alma encantadora das ruas - João do Rio - pg. 88 / Não contem com o fim dos livros - Eco e Carriere - pg 59 / Dom Casmurro e os Discos Voadores - Machado de Assis e Lucio Manfredi - cap. 105.
Boa Sorte.


