Quarto texto da série 'Sociedade', 'Sem falar em remédios' me rendeu o terceiro lugar na categoria crônicas do FEPLAC, um festival literário do CEFET. O final pode ser de mal gosto, sei lá, mas foi assim que eu imaginei a história e não irei mudar.
Sem falar em remédios
- Que casal mais bonitinho! Era o que todos falavam quando os viam caminhando pela praça. Faziam uma caminhada matinal, todos os dias, até aos domingos, por recomendação do médico dele.
Primeiro a dama, Dona Ruth era um amor de pessoa, ou melhor dizendo, o amor em pessoa, sempre com aquele sorriso meigo, típico de senhoras bondosas.
Agora vem o cavalheiro, porém, muito do malandro, Seu Alberto tinha que tocar seu bandolim todo dia, e se encontrar com a roda de chorinho uma vez por semana, só que agora, sem cerveja, por causa da saúde.
Os dois estavam com 68 anos, mas ainda moravam sozinhos, no Bairro de Fátima, em Fortaleza. Não por abandono, convites não faltaram, é por gosto mesmo, parecia até que o objetivo deles era continuarem independentes até onde puderem.
Sozinho foi modo de falar, já que visitas eram constantes. Filhos, netos, amigos, vizinhos, não cansavam de conversar com esse casal, talvez porque eram os únicos idosos que não falavam de remédios todo tempo.
A longevidade deles dois talvez seja explicada pela quebra de rotina, não ficavam fazendo sempre as mesmas coisas, nos mesmos horários, construindo mesmos dias. Viagens, passeios, até pagamento de contas e arrumação da casa era sempre diferente.
Certo dia, Seu Alberto foi se encontrar com a roda de chorinho num boteco ali perto, por volta das cinco horas da tarde. Dona Ruth ficou em casa, na companhia de uma neta de dezesseis anos, as duas conversando, assistindo TV e fazendo tricô.
Aconteceu que um dos problemas antigos do mundo, e que se acentuou atualmente, entrou em ação. Um ladrão que já tinha estudado a casa anteriormente, resolveu roubá-la naquele momento.
Invadiu, foi entrando gatunamente pela casa, quando chegou na sala, anunciou o assalto. Apontando a arma para Dona Ruth, ordenou que a mocinha enchesse um saco com dinheiro, jóias e aparelhos eletrônicos de pequeno porte.
Dona Ruth, rezando muito, começou a balbuciar o nome do marido, como se quisesse mandar um recado pela linha que os uni.
Seu Alberto volta para casa, com um mal pressentimento, vai entrando vagarosamente, vê o ladrão de costas e lhe acerta o bandolim na cabeça.
Com o susto, o ladrão dispara em Ruth.
Alberto corre para socorrê-la. O ladrão se recompõe da pancada.
Ele se prepara e também atira em Alberto.
Nosso querido senhor cai por cima de sua esposa e morre no colo dela. Com os disparos, a neta volta para a sala com um celular em mãos. O ladrão pega a sacola e sai correndo.
A polícia já estava acionada e pegou o meliante. A vizinhança e familiares ao redor, esperando a polícia aparecer, já com o indivíduo preso. Ninguém podia tocar nos corpos, e lá eles ficaram:Ruth sentada no sofá e Alberto caído em seu colo.
Entre críticas à sociedade violenta e consolos aos que mais choravam, alguém mencionou:
- Isso pode até ser pecado, me perdoem mas, até depois de mortos, eles são bonitinhos!
CA Ribeiro Neto
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* Hoje, mais um show do Baque Lírico, 23h, no Fafi! Quem não foi semana passada, vá nesse!
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ESCUTANDO NO MOMENTO: Samba della rosa - Vinicíus de Morais
Boa Sorte