A dança da alegria

A dança da alegria - CA Ribeiro Neto

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Sempre Presente

Poesia antiga, que eu não sei porque ainda não a publiquei aqui!


Sempre Presente


Eu queria estar sempre presente
Nas suas horas de agonia,
No momento de calmaria,
Totalmente em sua vida.

Quero estar sempre presente
Nos seus sonhos e orações,
Quero estar em seus grilhões
De forma voluntariosa,
Pode ser impiedosa,
Mas quero está sempre presente.

Quero te dar toda a atenção
E em meu coração
Você está sempre presente.
Para acabar com a solidão,
Para repetir-me à exaustão
Vou estar sempre presente.


CA Ribeiro Neto
--x-||-x--


ESCUTANDO NO MOMENTO: Aboniza mas não morre - Nelson Sargento e Tereza Cristina [CD Cidade do Samba]
LENDO NO MOMENTO: Tocaia Grande - Jorge Amado - pg. 246 || Leite Derramado - Chico Buarque - pg. 76.

Boa Sorte || ApontArte

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Corrente de textos

Depois do recesso de férias, voltamos às postagens de todas as santas quintas! Hoje farei uma sequencia de textos, onde você só lê até onde você quiser, não precisa ler todos!

Começo com o único pensamento literário que tive nessas férias e que foi escrito, além deste último ensaio sobre a importância dos personagens:

"Pensar pode ser uma dádiva ou um fardo para o ser humano. Não sei se é vantagem humana poder imaginá-la ao meu lado, sem poder realizar tal desejo" - CA Ribeiro Neto, salvo como mensagem de texto no celular.

Daí esse simples pensamento meu, fez-me relembrar de uma grande crônica de Antonio Prata, que é a seguinte:


Os outros
Você não acha estranho que existam os outros? Eu também não achava, até anteontem, quando tive o que, por falta de nome melhor, chamei de SCA – Súbita Consciência da Alteridade.
 
Estava no carro, esperando o farol abrir e comecei a observar um pedestre, vindo pela calçada. Foi então que, do nada, senti o espasmo filosófico, a fisgada ontológica. Simplesmente entendi, naquele instante, que o pedestre era um outro: via o mundo por seus próprios olhos, sentia um gosto em sua boca, um peso sobre seus ombros, tinha antepassados, medo da morte e achava que as unhas dos pés dele eram absolutamente normais – estranhas eram as minhas e as suas, caro leitor, pois somos os outros da vida dele.

O farol abriu, o pedestre ficou para trás, mas eu não conseguia parar de pensar que ele agora estava no quarteirão de cima, aprisionado em seus pensamentos, embalado por sua pele, tão centro do Cosmos e da Criação quanto eu, você e sua tia avó.

Sei que o que estou dizendo é de uma obviedade tacanha, mas não são essas verdades as mais difíceis de enxergar? A morte, por exemplo. Você sabe, racionalmente, que um dia vai morrer. Mas, cá entre nós: você acredita mesmo que isso seja possível? Claro que não! Afinal, você é você! Se você acabar, acaba tudo e, convenhamos, isso não faz o menor sentido.

As formigas não são assim. Elas não sabem que existem. E, se alguma consciência elas têm, é de que não são o centro nem do próprio formigueiro. Vi um documentário, ontem de noite. Diante de um riacho, as saúvas africanas se metiam na água e formavam uma ponte, com seus próprios corpos, para que as outras passassem. Morriam afogadas, para que o formigueiro sobrevivesse.

Não, nenhuma compaixão cristã brotou em mim naquele momento, nenhuma solidariedade pela formiga desconhecida. (Deus me livre, ser saúva africana!). O que senti foi uma imensa curiosidade de saber o que o pedestre estaria fazendo, naquele momento. Estaria vendo o mesmo documentário? Dormindo? Desejando a mulher do próximo? Afinal, ele estava existindo, e continua existindo agora, assim como eu, você, o Bill Clinton, o Moraes Moreira.
 
São sete bilhões de narradores em primeira pessoa, soltos por aí, crentes que, se Deus existe, é conosco que virá puxar papo, qualquer dia desses. Sete bilhões de mundinhos. Sete bilhões de chulés. Sete bilhões de irritações, sistemas digestivos, músicas chicletentas que não desgrudam da cabeça e a esperança quase tangível de que, mês que vem, ga-nharemos na loteria. Até a rainha da Inglaterra, agorinha mesmo, tá lá, minhocando as coisas dela, em inglês, por debaixo da coroa. Não é estranhíssimo?
Então, esse texto acabou me lembrando outros dois textos meus, que também falam do olhar para a sociedade de uma forma repentinamente diferente:

Bem, parabéns e obrigado se você chegou até aqui!

CA Ribeiro Neto

xXx

ESCUTANDO NO MOMENTO: Nada.
LENDO NO MOMENTO: Tocaia Grande - Jorge Amado - pg. 176


Boa Sorte || ApontArte

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Você tem uma vizinha meio Macabéa?

Um ensaio literário, nada científico.


Você tem uma vizinha meio Macabéa?



Qual o poder de um personagem? É óbvio que sem eles não há histórias, há cenários. Mas criá-los não é só decidir quem vai mediar os verbos do texto. Dom Quixote, Hamlet, Dorian Gray, Capitu, Policarpo Quaresma, Macabéa e Baleia. Se você tem uma grau médio de leitura já deve ter ouvido falar de pelo menos 5 desses. O que eles têm em comum: se tornaram ícones da literatura sem mesmo existir.

Infelizmente, muitos personagens são mais conhecidos que seus criadores; mas isso também prova de que estes fizeram seu trabalho bem feito. Estes nomes citados servirão apenas como exemplos do poder real de um personagem bem estruturado.
 
Dom Quixote, de Cervantes, é o protagonista de um dos romances mais mais importantes da cultura ocidental. Um cara que enlouqueceu de tanto ler, se proclamou cavaleiro e saiu por aí a enfrentar dragões – ou moinhos, talvez! Resumindo em uma frase não se percebe o alcance desse livro. Mas, pensando um pouco, quando você fala bem de um livro que gostou, defende seu autor preferido de alguma acusação, não estaria enfrentando uma dificuldade, um moinho que insiste em rodar uma ofensa para o ar?
 
Quixote é tão importante que Lima Barreto se inspirou nele para escrever Triste Fim de Policarpo Quaresma. Outro personagem tido como louco – por seu país – e que há como causador da loucura a leitura! Lima é tão sarcástico, que coloca seus outros personagens tendo orgulho de não mais lerem. Policarpo era louco, mas deixou sua semente país. Ou o Brasil alguma vez se desvencilhou da imagem do que ainda pode ser?
 
Dorian Gray também é um eternizado e há quem ache que este é o nome do autor! Pobre Oscar Wilde é esquecido enquanto o Gray é citado por aí! Sua beleza e jovialidade era tão importante para si, que procurou a magia para não perdê-las jamais. Tanto não perdeu que marcou a principal obra decadentista mundial. E o que ele e os outros citados fizeram para tal: mexeram diretamente com os leitores. O personagem não precisa parecer seu vizinho, ser um super-herói ou pendurar uma melancia no pescoço. Ele precisa mexer com os sentimentos de quem os lê.
 
Capitu representa bem esse sentimento. Com seus olhos de ressaca, Machado fá-la criar um mistério que perturba Bentinho e seus leitores. Dom Casmurro foi praticamente o primeiro 'Você Decide'. Já vi discussões calorosas de defesas e acusações a Capitu; e aí eu pergunto, Machado fez ou não fez um livro e uma personagem perfeitos? [Para mim, ela é inocente].
 
Superficialmente, Romeu e Julieta parece ser a história mais conhecida de Shakespeare, mas e se a gente tentasse catalogar o número de frases mundialmente conhecidas de Hamlet? “Há algo de podre no reino da Dinamarca”, “Dormir, dormir, talvez sonhar...”, "Há mais coisas no céu e na terra, Do que sonha a tua filosofia" e, a mais conhecida, “ser ou não ser, eis a questão”. Vocês acabaram de ler literatura que, de tão eternizadas, viraram provérbios, ditos populares. Será isso o máximo que uma obra artística pode chegar da consagração?
 
E quando o personagem é criado para ser amado e odiado ao mesmo tempo? Macabéa, da Clarice Lispector, é inesquecível porque você quer entrar na história, puxar sua orelha e mandar ela tomar rumo na vida. Macabéa é mais importante que o livro em que está inserida, ou todos se lembram facilmente que o livro que ela protagoniza é 'A Hora da Estrela'?
 
Aliás, para não falarmos apenas de protagonistas, quando falamos em 'Vidas Secas', do Graciliano Ramos, lembramos primeiro do Fabiano ou da Baleia? Baleia era o cachorro de uma família de retirantes, praticamente um parente, que mais parecia nosso também. Já ouvi vários relatos de choro quando leram a parte de sua morte. Eu não chorei, mas confesso a garganta presa.
 
Há quem diga que romance é superior a contos, cronicas e poemas; a favor desse argumento, afirmam-se que seus personagens dificilmente se imortalizam. Mas só para não diminuir ninguém, Homero e Camões tiveram muitos personagens inesquecíveis. Tchecov, Machado, Lima Barreto e João do Rio têm personagens nos contos importantíssimos.
 
E então, vais mesmo fazer um personagem parecido com o seu vizinho?



CA Ribeiro Neto

*

ESCUTANDO NO MOMENTO: Da cor do pecado - Nara Leão
LENDO NO MOMENTO: Tocaia Grande - Jorge Amado - pg. 108


Boa Sorte || ApontArte

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Dos meios de transportes - ontem, pelo Limão, e hoje, por mim

Amigos, posto mais um texto antigo, que já passou por esse blog antes, mas foi em 2008. Vou relacionar aqui o meu texto '10% Móvel', que fala sobre aeroporto, com um trecho do livro 'Triste Fim de Policarpo Quaresma', de Lima Barreto, que fala sobre os trens. Independente do meio utilizado, os dois falam do ambiente das chegadas e despedidas.


"É uma emoção especial de quem mora longe, essa de ver chegar os meios de transporte que nos põem em comunicação com o resto do mundo. Há uma mescla de medo e de alegria, ao mesmo tempo que  se pensa em boas novas, pensam-se também más. A alternativa angustia...
O trem ou o vapor como que vem do indeterminado, do Mistério, e traz, além de notícias gerais, boas ou más, também o gesto, um sorriso, a voz das pessaos que amamos e estão longe." - Triste de Fim de Policarpo Quaresma [parte II, capítulo I]

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10% móvel



Sabrina estava abismada. Seu último namoro terminou há sete meses e ela continuava triste e só. Não se sabe ao certo se ela não estava com sorte ou eram consequências do auto-isolamento, mas o fato era que ela estava carente e não estava fazendo esforço para reverter o quadro.
 
Certa vez, ela escutou um amigo dizer que é ótimo o ambiente de aeroportos. Seja na alegria ou na tristeza, das saídas e chegadas; seja na saúde ou na doença, dos passeios ou dos imprevistos. No aeroporto, ou você chora, ou é solidário às lágrimas dos outros. Sem falar que Sabrina não tem conhecidos com o costume de viajar de avião. Então, seria o lugar prefeito para não encontrar ninguém.

Ela foi ao aeroporto afim de ver pessoas e imaginar suas histórias. Se gostasse, escreveria, se não, olhava para outra pessoa [ela sempre andava com um caderninho]. Chegou, foi à praça de alimentação, pediu um café [desistiu de comer depois que examinou os preços] e começou.
 
- Aquele cara de terno e gravata, falando aperreado ao celular, mas tomando cuidado para não ser escutado... tem cara de vereador que está sendo investigado por corrupção. Conversando com assessores e medindo as palavras devido à quebra de sigilo telefônico... essa história já está trivial, acontece sempre...

Continua.

- Aquele bebezinho, no colo de sua mãe, recebe o que pode ser o último beijo do pai, que se despede. Quem sabe seus “dias dos pais” serão tristonhos. Quem sabe a mãe dele se junta com um ótimo padrasto. Qual escrevo? A história boa ou a ruim? Melhor não escrever...

Próxima pessoa.

- Aquele rapaz, que parece muito com o Caio, meu ex... do lado daquela mulher, que parece minha ex-sogra e aquela turma, que parece muito com os amigos do meu ex e que, inclusive, estão apontando para mim.

Um dos pontos positivos do aeroporto deu errado. Realmente era o Caio, a ex-sogra [que tentou segurá-lo para que não fosse até ela...] e a velha turma. Ele, sozinho, se aproxima de Sabrina e começa a conversa.

- Veio se despedir de mim também?
- Não! Eu vim passear... é... deixa para lá... você está indo para onde? [Ai meu Deus, ele está rindo de mim!]
- Para Espanha. Fazer pós-graduação em Administração em Agronegócio.
- Legal! Boa sorte!
- Olha, eu já vou! Meu embarque é agora! Tchau.
- Tchau! Boa sorte!

Sabrina estava abismada. Ele se formou, e ela não sabia. Ia viajar, e ela não sabia. E o pior, tinha umas garotas que estavam com a turma, que ela não sabia quem eram!

Tomou o último gole do café e começou a chorar. Mas foi tempo chorando soluçadamente até que o garçom lhe trouxe outra xícara de café sem ela pedir. Na hora, ela nem se tocou, bebeu mesmo e junto com a calma, chegou a pergunta. Quem pediu esse café? Sabrina chamou o garçom.

- Desculpe, mas eu não tinha pedido esse café.
- Nós sabemos, Senhorita. Foi cortesia da casa!
- Ah sim! Mas eu faço questão de pagar. Me dê a conta com os dois cafezinhos, por favor!
- Pois não! - Ele pegou um recibo, escreveu “seu telefone” e entregou-a.
- Desculpe, mas eu não entendi.
- É a única coisa que quero pelos cafés!
- Ah não! Está aqui o dinheiro, eu fiz a conta de cabeça. - e entregou o dinheiro.
- Então o telefone pode ser como gorjeta?

Sabrina estava abismada. Pegou o papel e anotou seu número de celular e seu nome. Ele agradeceu e se retirou. Antes mesmo dela sair do aeroporto, recebeu uma mensagem que diz assim.

“Esqueceu o seu troco, está aqui: -número- Daniel. Espero não ter lhe deixado abismada, mas é que não gostei de lhe conhecer triste e só. Podemos nos conhecer de novo?”.


CA Ribeiro Neto
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ESCUTANDO NO MOMENTO: Carolina - Nara Leão
LENDO NO MOMENTO: Triste fim de Policarpo Quaresma - pg. 75.



Boa Sorte || ApontArte

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Triângulo Louco

Poesia em sequencia da passada, ela já fala por si só. Leiam.


Triângulo Louco

!
e
se de
repente
O triângulo
Se entendesse?
E começassem algo
Inusitado e feliz, como
Por exemplo, o Um ficando
Com os outros Dois! E esses Dois,
Gostando de estar com o Um. E mais,
Se esses Dois passarem a se gostar também!
Ah! Como descomplicaria esse triângulo amoroso!


CA Ribeiro Neto

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ESCUTANDO NO MOMENTO: Só Deus é quem sabe - Martinália
LENDO NO MOMENTO: Solar - Ian McEwan - pg. 235// Dentro da Noite - João do Rio - pág. 175 // Triste fim de Policarpo Quaresma - pg. 39.



Boa Sorte || ApontArte

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Triângulo Triste

Uma das primeiras postagens desse blog, reposto para que meu novo público possa ler das das minhas melhores poesias. Hoje posto 'Triângulo Triste e na próxima quinta postarei 'Triângulo Louco'.



Triângulo Triste

Como é complicado um triângulo amoroso!
Dois gostam de Um e Um gosta de Todos.
E se os Dois se conhecerem?
E se o Um não percebesse?
E se alguém chorar?
E tudo terminar
De um jeito
Triste
E só
 ?


CA Ribeiro Neto
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ESCUTANDO NO MOMENTO: Cruel - Luis Melodia
LENDO NO MOMENTO: Solar - Ian McEwan - pg. 235// Dentro da Noite - João do Rio - pág. 102 // Triste fim de Policarpo Quaresma - pg. 18.




Boa Sorte || ApontArte

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Os textos mais tristes

Continuando com textos tristes, correlaciono aqui dois links, um com o meu texto mais triste e outro com o filme inspirado no conto mais triste que eu já li:

Por falta de gentileza é um conto que faz parte do meu futuro livro 'Desenho Urbano. Mais ou menos em 2008, sonhei com essa história, tal qual está aí, acordei assombrado e, para conseguir voltar a dormir, tive que escrevê-lo. Não conheço nenhum personagem envolvido, eles não se parecem com ninguém que conheço, eu simplesmente sonhei e escrevi.


A Pequena Vendedora de Fósforos é um conto de fadas que li ano passado. Este filme é uma adaptação do conto de Hans Christian Andersen que quase me fez chorar no ônibus. O filme ainda corta umas partes bem pesadas, como ela não poder voltar para casa senão seu pai a bateria, ou essa mulher que aparece para levá-la é a avó dela, que ela era muito apegada e que faleceu há pouco tempo.


Impossível não ligar a condição de vidas nas duas histórias e como a sociedade faz que não vê esses seres e que farão pouco caso de suas mortes.

CA Ribeiro Neto
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ESCUTANDO NO MOMENTO: Eu apenas queria que você soubesse - Álbum Geral [1987] - Gonzaguinha
LENDO NO MOMENTO: Solar - Ian McEwan - pg. 228// Dentro da Noite - João do Rio - pág. 54 // Licânia - Clauder Arcanjo - pág. 52.


Boa Sorte || ApontArte