A dança da alegria

A dança da alegria - CA Ribeiro Neto

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Semelhanças e diferenças entre Lima Barreto e João do Rio

Um texto mais sério, fazendo uma relação com dois escritores que, junto com Carlos Drummond de Andrade e Luis Fernando Veríssimo, mais me influenciam.


Semelhanças e diferenças entre Lima Barreto e João do Rio



Lima Barreto e João do Rio são dois grandes escritores do período que antecede o pré-modernismo e que tem muitas semelhanças e antagonismos bem singulares. A primeira coincidência entre eles é o sobrenome. O verdadeiro nome do João é Paulo Barreto.
Os dois são mulatos, conseguiram seu reconhecimento graças a ajuda de outros mulatos e seguiram seu próprio caminho. Lima teve grande ajuda de Machado de Assis em seu começo e do Rio contou com o auxílio de José do Patrocínio, cunhado de sua tia – que também era tia do pintor Di Cavalcante.
Lima se destacou mais nos romances, mas fazia crônicas também; João invertia esse quadro. Contudo, os dois tinham a mesma linha de falar das minorias. O primeiro tratou da questão racial, social, violeiros, doentes mentais etc.; o segundo tratou também de questões raciais e sociais, mas também da malandragem, da umbanda e do homossexualismo.
Aliás, esse é o primeiro ponto da diferença entre eles e o ponto que culminou na rixa que havia entre os dois. No primeiro livro do Lima – Recordações do Escrivão Isaías Caminha – o João do Rio é citado como sinônimo de homossexualismo. Do Rio realmente era, não assumia, mas também não negava. Enfim, João do Rio não gostou de ver sua intimidade revelada em um livro. Eles até trocaram algumas farpas via crônicas, na época.
A vida amorosa deles é bem oposta também. Enquanto o do Rio pegava geral, homens e algumas mulheres, de vez em quando, não há registro de mulheres na vida de Lima, sem contar prostitutas que naturalmente ele deve ter utilizado dos favores. A semelhança entre eles, nesse ponto, está no fato de que nenhum dos dois se casaram, cada um por seu motivo. Do Rio viveu sempre com sua mãe; e Lima, que perdeu sua mãe quando ainda era criança, viveu sempre com uma irmã.
Os dois têm livros na lista dos três livros que melhor falam do Rio de Janeiro: o já citado Isaías Caminha, do Lima Barreto; o A Alma Encantadora das Ruas, do João do Rio; e O Cortiço, do Aluísio de Azevedo.
Entre os livros que mais se destacam de cada um, Lima tem o TristeFim de Policarpo Quaresma (trata do respeito de opinião), Clara dosAnjos (trata do preconceito social) e Cemitério dos Vivos (romance baseado no período em que ficou internado em um hospício). Já João do Rio tem como sua obra mais conhecida o A Alma Encantadora das Ruas (que trata das minorias nas ruas do Rio), mas também tem Religiõesdo Rio (um estudo jornalístico-literário das religiões na cidade) e Dentro da Noite (contos que tratam da busca pelo prazer nas formas mais diferentes possíveis).
Os dois marcaram a história da literatura por falarem sobre algo que ninguém falava. Numa área bem elitista, ver uma ascensão social dessa forma era caso raro.
O mais curioso de tudo na relação desses dois é a relação de como eles eram vistos na época e como são vistos agora. Lima Barreto é notadamente reconhecido hoje, mas na época, seu reconhecimento foi póstumo, morrendo praticamente sozinho e desconhecido.
João do Rio, hoje em dia, é um desconhecido. Mas em sua época, ele era um dos escritores mais ativos, lembrados e queridos. Para se ter uma ideia, seu enterro foi acompanhado por mais ou menos 100 mil pessoas e os taxistas, nesse dia, trabalharam de graça, indo do velório para o enterro.
Hoje eles estão sendo relembrados por novas publicações de suas obras, principalmente pelo fato de que os dois conseguiram fazer o que todo grande escritor deve fazer: se destacar por escrever algo realmente interessante e de uma forma única.

CA Ribeiro Neto
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Outras obras de Lima Barreto:
- Contos completos de Lima Barreto;
- Lima Barreto versus Coelho Neto;
Outras obras de João do Rio:
- Vida Vertiginosa;
- Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde - tradução do João do Rio;
- João do Rio - Antologia de Contos. 
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ESCUTANO NO MOMENTO: Formosa - Chico, Bethânia e Nara
LENDO NO MOMENTO: A alma encantadora das ruas - João do Rio - pg. 38 / Não contem com o fim dos livros - Eco e Carriere - pg 59 / Dom Casmurro e os Discos Voadores - Machado de Assis e Lucio Manfredi - cap. 100.


Boa Sorte

5 comentários:

Virgínia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
lucas lima disse...

a crônica e esse belo croônista que é Carlos, João e Lima tenho que ler, só faltou o Capote nesse textos, muito da mesmo vontade historica e vontade de ler.

hermesveras disse...

O Lima Barreto tinha uma richa com o Machado de Assis também, não? Acho que ouvir falar isso, em alguma aula de literatura.
Legal a análise entre os dois, sempre é assim, os escritos as vezes ficam em alta, em baixa, aí outros resgatam, e volta a ficar em alta. Por isso, que devemos andar em sebos também, procurar por aí, outros escritores, e não ficar só pegando o que está na "mídia" da literatura. Esse Guto, ainda botou os links dos livros na cultura, oh bicho safado vendedor!!!!! Deu vontade de comprar, ainda bem que já tenho religiões no rio.

Paulo Henrique Passos disse...

análise muito boa!
se tu fizesse Letras, tu tava era feito. hehehe

acho que ainda não achei meus autores "favoritos", que mais influenciam na minha escrita, mas acho que um dia eles vão aparecer, num sei.

Edmilson Paes disse...

Um breve reparo. Lima Barreto nunca teve a ajuda de Machado de Assis. Ele reconhecia o talento dele, mas não gostava da comparação. Ele um mulato militante, enquanto Machado um mulato de salão, digamos. O João do Rio não reconhecia sua condição de mulato e escondia sua origem e família. Dai a bronca de Lima. Os livros de Lima mais famosos são o Recordações do escrivão Isaias Caminha, Vida e morte de M J Gonzaga de Sá e o maior de todos: Triste Fim de Policarpo Quaresma.