A dança da alegria

A dança da alegria - CA Ribeiro Neto

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Lista de livros lidos em 2010

Começando uma tradição nesse momento, toda última quinta de cada ano postarei a lista que li nos 365 dias que passaram. Aí segue a lista dos 17 que já li, e talvez eu consiga terminar o 18º.


1. Alguma Poesia - Carlos Drummond de Andrade
2. Almanaque Armorial - Ariano Suassuna
3. E Não Sobrou Nenhum - Agatha Christie
4. Revolução dos Bichos - George Orwell
5. Cemitério dos vivos - Lima Barreto
6. Entradas e Bandeiras - Fernando Gabeira
7. Contos de Fadas - Diversos Autores
8. Contos de Vista - Elisa Lucinda
9. Corpo - Carlos Drummond de Andrade
10. Tris - Ylo Barroso Fraga
11. Os espiões - Luis Fernando Veríssimo
12. 21 contos inéditos - Carlos Lacerda
13. Ladrão de Cadáveres - Patrícia Mello
14. O Burrinho Pedrês - Guimarães Rosa
15. Benjamim - Chico Buarque
16. Libertinagem - Manoel Bandeira
17.  Os Lusiadas - Camões

CA Ribeiro Neto
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* Feliz ano novo a todos!
* Thayane Freitas em Fortaleza!!!
* Camila Travassos me desafiou para fazer um texto sobre Belém do Pará, enquanto ela fará um texto sobre Fortaleza. O que vocês sabem sobre a cidade dela??????????????
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ESCUTANDO NO MOMENTO: Diz que fui por aí - Luiz Melodia

LENDO NO MOMENTO: Caetés - Graciliano Ramos - pg. 165 // Dom Casmurro e os Discos Voadores - Machado de Assis e Lucio Manfredi - Cap. 68

Boa Sorte

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

A sílaba perdida

Eu estava com saudade de postar uma poesia por aqui; e como não levo minha poesia a sério, mostro-a a vocês pelo blog!

A silaba perdida


Solitário sou,
mas não me julgue,
porque por mais que assim perdure,
ser só
é diferente de sozinho.


Ser sozinho,
como demonstra o diminutivo,
é uma forma de carinho consigo,
uma solidão carinhosa,
atraente, charmosa,
um estado de espirito
que quando se quer, mandamos embora.

Já estar só
é tão só,
que até a sílaba, deprimida, se indica,
entre espaços, aflita, perdida.


CA Ribeiro Neto
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* Próxima semana, última postagem do ano, começarei uma tradição: postar a lista de todos os livros que li no ano, em ordem dos que mais gostei para os que não tanto...
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ESCUTANDO NO MOMENTO: Lágrimas Sofridas - Los Hermanos

LENDO NO MOMENTO: Caetés - Graciliano Ramos - pg. 50 // Dom Casmurro e os Discos Voadores - Machado de Assis e Lucio Manfredi - Cap. 58


Boa Sorte

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Todos temos medo

Lucas Lima disse que estava bom, então estou postando, mas sei que não é o melhor texto meu!




Todos temos medo



Medo todos têm e é natural que tenhamos mesmo. Mas surpreendo-me muito quando vejo alguém evitando-o com medo de enfrentá-lo. O ser humano é sempre cheio de tantas variáveis que é meio louco dizer que todos devem enfrentar seus dragões. Mas não domá-los não seria ser domado?
Medo de sair na rua, de ser assaltado, sequestrado, o escambau. Esse é o mais comum. Mas quem garante que em casa você está seguro? Marcelo Yuka falou bem: é você quem está nessa prisão! Sem querer me repetir a respeito de minha querida Fortaleza, eu não vou deixar de andar nela por receio de pilantragem nenhuma!
Um medo curioso que venho escutando muito atualmente é o medo de amar. Poxa, amar nem sempre é bom, óbvio, mas desistir de tentar é brincadeira! Posso me relacionar com uma mulher autoritária, ciumenta, broca, incompreensível e ainda ser feliz e amá-la muito. Assim como posso temer amar a melhor mulher do mundo e, assim, perdê-la. Claro que os exemplos foram exagerados, mas se você não tentar, como vai saber se será a melhor do mundo ou a autoritária, ciumenta...?
O amor é a opção mais sublime que temos para tentar viver em sociedade.
E o medo de procurar o que quer? Quantos médicos atendem sem olhar na nossa cara porque queriam ser músicos e vivem uma vida bosta? É verdade que muitas vezes não temos escolhas, temos família para criar, casa para sustentar, ou até, dependendo da vida de cada um, gasolina e motéis para pagar e precisamos correr atrás da bufunfa, dindim. Mas eu não conseguiria trabalhar numa coisa para o resto da vida que não me fizesse feliz. E eu sei que eu não generalizo tudo, o fato de eu não conseguir, não significa que outros não consigam.
Medo. Repito ele no começo de cada parágrafo porque quando ele tem a oportunidade de aparecer, ele se escancara na nossa frente. Daí então, o pulso ou o pensamento deve fechar-se; e a coragem ou os batimentos cardíacos tendem a aumentar.
O medo é a opção mais espalhafatosa que a sociedade tem para nos lembrar que somos humanos.


CA Ribeiro Neto
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* 17 livros lidos no ano! Para quem tinha a média de 9, quase dobrei. Não vou pegar um livro pequenino só para fechar os 18!
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ESCUTANDO NO MOMENTO: Gol anulado - João Bosco

LENDO NO MOMENTO: Diario do Hospício e Cemitério dos Vivos - Lima Barreto (apêndices) pg. 257 [eu tinha emprestado quando acabei o romance mesmo, agora vou ler os apêndices] // Dom Casmurro e os discos voadores - Machado de Assis e Lucio Manfredi - cap. 51.

Boa Sorte

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

7 filmes que marcaram a minha vida

Em ação conjunta Blogs de Quinta, eis a minha lista de 7 filmes que marcaram de alguma forma a minha vida. Não estão em ordem de importância e nem é preciso dizer que é uma tortura empolgante fazer essas listas, deixando outros títulos de fora!

7 filmes que marcaram a minha vida


Rei Leão – Este filme foi um dos poucos VHS que minha família comprou e eu assistia quase toda semana! Foi também o primeiro filme que me fez chorar no cinema, em pleno Cine São Luis! Uma história bonita, umas paradas muito engraçadas, as músicas de Elton John e Ed Motta e um ensinamento que carrego para toda a vida. E uma crônica feita agora depois de crescido - enquanto um gnu não me atropelar! [Quem quiser ler a crônica clica aqui]
Ilha das Flores – é um curta metragem feito pelo Jorge Furtado que, de uma maneira bem humorada e crítica, mostra como as vezes modificamos as prioridades por medidas humanas que acabam se tornando incoerentes. Na ilha das flores, não há flores, só lixo. E lá, porcos tem mais direitos que humanos. - que são mamíferos de tele-encéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor.  [Como é um curta, dá para assistir agora, clicando aqui para ver a parte 1 e aqui para assistir a parte 2]
Linha de Passe – Do diretor Walter Salles, esse filme me inspirou numa das minhas melhores crônicas [Quem quiser ler a crônica clica aqui]. Fala de uma família composta da mãe e seus quatro filhos; cada um buscando seu sonho e, consequentemente, enfrentando suas dificuldades. O final é surpreendente. Saí do cinema hipnotizado.
Abril Despedaçado – Também do Walter Salles, já deu para perceber que gosto do trabalho dele. Impossível negar sua relação com o livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos - mas não tem a Baleia! Mostra fielmente a cultura e o cotidiano do interior nordestino e mostra como nós também temos o poder de padrões que chegam a se tornar carmas.
Trilogia De Volta Para o Futuro – melhor trilogia de todos os tempos do cinema, este filme engloba diversos elementos fascinantes como ficção científica, amor, aventura, comédia. Tem um roteiro complexo, bem estudado e envolvente. O que mais gosto é o 2, então, antes que me chamem de covarde ao escolher uma trilogia, eis o meu preferido.
Pequena Miss Sunshine – um filme fabuloso, que me influenciou também, na construção do meu livro Desenho Urbano [sem edição]. Fala de como todos temos defeitos e de como em momentos difíceis esses defeitos se acentuam. Também de como precisamos do próximo e, principalmente, de como não precisamos nos preocupar com a opinião alheia.
O Grande DitadorCharles Chaplin é o grande nome do cinema de todos os tempos e ele não pode faltar em nenhuma lista. Todos sempre citam Tempos Modernos, mas eu fico com O Grande Ditador, que é um grande filme também. Além da famosa cena do Hitler dançando com o Globo Terrestre [Assista à cena aqui], ou Hitler e Mussolini brigando com comidas, ou a historinha de amor do barbeiro com a mocinha. Tudo é muito bonito e ácido, vale a pena assistir!


CA Ribeiro Neto
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* Semana cansativa, mas agora que o fim de ano começou! Folga amanhã é ouro!
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ESCUTANDO NO MOMENTO: Nem o pobre nem o rei - Gonzaguinha

LENDO NO MOMENTO: E não sobrou nenhum - Agatha Christie - pg. 187 // Dom casmurro e os discos voadores - Machado de Assis e Lucio Manfredi - cap. 38.

Boa Sorte

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Fortaleza, minha querida – parte 2

Eis a segunda parte do texto sobre Fortaleza. Próxima semana Ação Blogs de Quinta - 7 filmes que marcaram a sua vida!


Fortaleza, minha querida – parte 2



Continuando os textos com curiosidades sobre a minha amada Fortaleza, falo agora do nosso nascer e pôr do sol. Sabe aquelas imagens hollywoodianas em que o sol aparece ou some no mar, com muito laranja e o reflexo nas águas? Pois é, na grande maioria das capitais mundiais só se ver essa beleza ou de manhãzinha ou à tardinha. Fortaleza é a única capital brasileira a ver o nascente e o poente no mar. Sem falar que o céu fica lindão, com azuis, violetas, vermelhos, laranjas e amarelos. Foi mal, Hollywood, a gente tem isso duas vezes ao dia!
Agora, muita gente pensa que o Ceará é conhecido como Terra da Luz por causa do sol – que de tão quente chega a ser inebriante –, mas, na verdade, são dois outros motivos. O primeiro, mais óbvio, é que aqui teve a primeira manifestação de abolição da escravatura, na cidade de Redenção, em 1884, e que depois se espalhou por todo o Estado, sendo a capital, Fortaleza, a segunda cidade a adotar a libertação dos escravos.
É verdade que aqui havia poucos escravos, justamente por não ter se desenvolvido tanto a cana-de-açúcar, então, não havia tanta necessidade em tê-los por aqui. E isso justifica o fato de vermos poucos negros em nossa sociedade – quando o vemos, descobrimos que veem de outros Estados. Mas é preciso deixar claro que essa iniciativa abolicionista partiu de frentes oligárquicas e teve também apoio dos jangadeiros.
Daí veio o Dragão do Mar, um pescador que já não queria mais dá uma de gondoleiro de Veneza – até porque esta fica na Itália e não na imitada França. Esse serviço era utilizado porque nosso porto sempre foi raso e os navios atolariam se chegassem mais perto. Um desses pescadores resolveu reivindicar contra isso lá na capital e rumou, de jangada, para o Rio de Janeiro, ficando conhecido por Dragão do Mar, devido à coragem.
Mas não foi esse o único motivo para o Ceará ganhar seu apelido luminoso, digo, carinhoso. Lembrem-se que Paris é conhecida como a Cidade Luz e nada melhor do que imitá-la também no termo mundialmente conhecido. No caso, utilizaram a desculpa da abolição para adotarem a mesma alcunha.
Já que chegamos nas gaiatices cearenses a níveis importados, vamos à origem do termo “baitola”. Quando foram construir a linha férrea de Fortaleza, inventaram de chamar um inglês meio afeminado para ser o engenheiro da obra. Este, muito preocupado com a bitola – distância padrão dos ferros do trilho –, não parava de gritar tal termo, mas com o jeito gringo de falar, tornando a fonia do “i”, num “ai”.
Imagine um inglês que suspeitavam de sua heterossexualidade gritando “Olha a Baitola! Olha a Baitola”, em meio aos peões, cearenses como cada um sabia ser? Dá para imaginar que isso caiu logo na picardia. O termo acabou virando sinônimo de homossexualismo e por muito tempo só entendia isso quem era cearense, até que nossos muitos humoristas levaram para o resto do Brasil.
Mas, falando em minorias oprimidas e termos cearenses, tem também o caso do “Queima Quengaral”. Havia no Centro da cidade uma galeria como essas que ainda encontramos – bem raros, é verdade – nas grandes capitais. Quem conhece galerias sabe que em cada andar tem a venda de um tipo de produto; e  no último andar desse prédio era o puteiro. Certo dia a galeria pegou fogo e todos correram o mais rápido que puderam para fora do lugar, menos as conhecidas “quengas”. Como elas ficavam no último andar, elas subiram até a cobertura para pedir socorro. Ao invés de ajudar, os moralistas de ocasião e gaiatos de sempre começaram a gritar “Queima Quengaral” e o termo acabou se tornando algo parecido com “jogar lenha na fogueira”.
Para se ter uma ideia de como cearense gosta de uma fuzarca, havia aqui em Fortaleza o Cajueiro da Mentira, onde os malamanhados se reuniam para ver quem contava a história mais cabeluda. Tinha até campeonato e data comemorativa! Como podem mais uma vez ver o espírito inovador cearense, eis o começo do Stand up mundial! O curioso é que alguns estudiosos discutiam se ele realmente existiu ou se era, digamos, invenção! Já pensou? O Cajueiro da Mentira ser uma também? Mas agora já tem foto e tudo dos eventos que lá existiam.
Mas evento maior que a vaia ao sol não existiu e nem existirá. Fazia três dias que chovia sem parar. Para quem não é daqui, isso é muito raro. Chover por três dias, o dia todo, eu nunca vi. Mas justamente por isso os cearenses estavam adorando. Pareciam pinto no lixo. No terceiro dia as nuvens começaram a se abrir e o sol surgiu entre elas. Então, os presentes na Praça do Ferreira, atingidos pela mesma comoção, pela mesma indignação, fizeram coro encorpado e uníssono. Meteram-lhe uma bela de uma vaia, que encabulou Hórus, Tupã e Luis XIV de uma vez. Até porque nossa vaia não é “uuuhhhhh” como no resto do mundo. Nossa vaia é um “iiiiiiiieeeeeeeeeeeeiiiiiii” que encabula mais porque ainda assusta quem a escuta pela primeira vez, ainda mais quando se é o alvo.
Fortaleza tem essas e muitas outras histórias e cada morador sabe um pouquinho delas, porque elas não só se renovam como também surgem outras, como o assalto ao Banco Central, por exemplo. Então, quem sabe, esse texto não será o último sobre essa cidade nesse blog.


CA Ribeiro Neto
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* Ontem foi o primeiro ensaio da nova banda! Foi um começo legal, mas ainda há muito por vir.
* Blogs de Quinta com a capacidade máxima! 15 membros! Mas nem todos ativos...
* Atenção aos quinteiros,  Ação Blogs de Quinta - 7 filmes que marcaram a sua vida! Todos que quiserem participar, postem sua lista de 7 filmes na próxima quinta.
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ESCUTANDO NO MOMENTO: Comportamento Geral - Gonzaguinha
LENDO NO MOMENTO: 100 melhores crônicas brasileiras - Joaquim Ferreira dos Santos - pg. 322 // Dom Casmurro e os Discos Voadores - Machado de Assis e Lucio Manfredi - Cap. 2

Boa Sorte

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Fortaleza, minha querida - parte 1

Bem, fazendo um registro da cidade, eis algumas coisinhas que sei e que quero compartilhar. Para quem não conhece muito do mapa de Fortaleza, favor olhar aqui.


Fortaleza, minha querida.

No texto passado falei das nuvens na cidade-amante, e é óbvio que estava falando de Fortaleza. Afinal, acho que todos sabem da admiração que tenho por esse lugar. Vou falar, então, de suas peculiaridades do passado, do presente e das atemporais.
O mar é algo muito importante para Fortaleza. Até por orientação cartográfica: se você estiver de frente para a Barra do Ceará, Orla do Pirambu, Praia de Iracema, Beira-Mar, Titanzinho, estará virado para o Norte da Rosa dos Ventos.
Já quem estiver na Praia do Futuro, Sabiaguaba e Abreulândia estará na porta de entrada do vento, pois é nesse sentido diagonal que a brisa marítima entra na cidade. E aí fica a dica: independentemente de onde estiver em Fortaleza, se quiser saber se vai chover ou não, basta ficar de frente para onde seria as primeiras praias citadas e olhar para o seu nordeste, que seria a direção das segundas praias citadas; se tiver nuvens escuras vindo de lá, é porque é muito provável que chova. Não sei se ficou claro, mas tudo bem...
Essas nuvens marítimas vêm do meio do atlântico carregadas de vento frio, que traz consigo outra característica peculiar da cidade, o vento que é tão forte e que ameniza o calor louco que tem por aqui. Hoje em dia as sentimos menos, devido aos enormes prédios que foram postos em nossa orla. Mas o vento ainda corre por nossas ruas xadrez.
As ruas xadrez são a parte projetada da cidade, que começou no Centro e que ao longo do tempo se estendeu para bairros vizinhos. Para quem não conhece, ruas xadrez são o entrelaçado das vias iguais a um tabuleiro, formando sempre quadrados iguais para casas e comércios. Há muita divergência se esse sistema é bom ou não para o fluxo da cidade. Uns dizem que dá lógica ao trânsito e foi esse o motivo de implantarmos, outros dizem que eles fazem o veículo parar muito em cruzamentos ao invés de dar uniformidade ao caminho. Enfim, deixo a discussão para os arquitetos.
Esse xadrez todo foi uma ideia importada da França, numa época que todas as ideias eram importadas de lá. Nessa época, finalzinho do século XIX, tudo aqui lembrava Paris. Inclusive a literatura. E foi daí que surgiu a Padaria Espiritual, totalmente inspirada no Modernismo europeu e que trazia para cá as ideias inovadoras e popularizadoras que os Andrades divulgaram no Rio só em 22. Entenderam? O Modernismo brasileiro nasceu aqui! Adolfo Caminha, Antônio Bezerra, Antônio Sales e muitos outros fizeram da Padaria um acontecimento único. Eles traziam tudo que a Semana de 22 trouxe, com uma coisinha cearense a mais: a molecagem. Vejam só o artigo 16 do Estatuto da Padaria Espiritual:

“Aquele que durante uma sessão não disser uma pilhéria de espírito, pelo menos, fica obrigado a pagar no sábado café para todos os colegas. Quem disser uma pilhéria superiormente fina, pode ser dispensado da multa da semana seguinte.”


Outro marco da irreverência fortalezense foi o caso do Bode Ioiô. Este personagem hoje está empalhado no Museu do Ceará, para que todos possam ver sua imponência. Ioiô rondava as ruas do Centro e era muito querido por todos que passavam pelo local. Inclusive, as pessoas que o alimentavam, dando-o comidas e bebidas – sobretudo as alcoólicas. Seu nome se deu porque a casa de seu “dono” – aspas porque todos eram dono dele, na verdade – ficava no Mucuripe e o bode ia e voltava sozinho da casa para o Centro (vide distância no mapa). Talvez pelo vicio da bebida. Seu ápice foi quando pegaram seu nome e registraram como candidato a vereador de Fortaleza. E ganhou. Só não pôde assumir porque não sabia ler e escrever – besteira.
Próxima semana continuo outras histórias de Fortaleza, como a origem do termo “Queima quengaral”, “baitola” e a famosa Vaia ao Sol. Sobre o motivo de ser chamada Terra da Luz e a curiosidade no nascer e no pôr do sol.


CA Ribeiro Neto
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* Cheguei à marca de 15 livros lidos no ano. Para quem tinha a média de 9 por ano, acho que melhorei.
* 2010 ainda não acabou e devo aumentar esse número.
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ESCUTANDO NO MOMENTO: Espelho - Diogo Nogueira.

LENDO NO MOMENTO: Contos de Fadas - Ed. Jorge Zahar - Pg. 165 // Dom Casmurro e os Discos Voadores - Machado de Assis e Lucio Manfredi - Cap. 2

Boa Sorte

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O alívio de toda a cidade-amante

Hermes me pediu um texto sobre as nuvens que tanto amenizam nosso calor cearense, e daí está o resultado do desafio.



O alívio de toda a cidade-amante



Andar sempre foi meu hábito. Troco uma viagem curta de ônibus por uma caminhada longa facilmente. Afinal, é andando que mais penso na minha vida, como mais descubro as soluções dos meus problemas, como conheço mais e mais essa minha cidade-amante, como crio inspiração para meus textos, como arranjo tempo para uma ou outra ligação pendente.
Deixo bem claro que faço isso por prazer! Se eu for fazer caminhada como prática física, considero logo uma obrigação e então perco totalmente a vontade. Tem que ser totalmente voluntário, sem um objetivo escondido.
Mas os não-andarilhos questionam o sol cearense como empecilho fundamental para tal atividade, julgando-o que o custo-benefício não valesse tanto a pena. Realmente, a temperatura daqui está cada vez mais massante e não lhes tiro a razão.
A questão é que andar pela cidade é uma arte. Você tem que fazer a leitura do território. Perceber para onde a sombra está caindo; o quão arborizado é a rua; e, principalmente, como estão as nuvens sobre nós.
Se a cidade-amante é marítima e quente, o mar-amante à sua frente há de evaporar gotinhas. Não é nada suficiente para fazer chover diariamente, nem mensalmente, mas é o que precisamos para se ter nuvem, na maioria das vezes. Quando um floco branco desses chega sobre nós, é um alivio tão grande, que até ateu agradece a Deus por enviar tamanha graça! Já tive a ideia tola de ficar andando ao mesmo ritmo da nuvem para não perder sua sombra. Não deu muito certo porque era um dia de muito vento e ela correu de mim... mas posso dizer que tentei.
Engraçado ver alguns textos falando de como é bonito o céu azul, sem nada de nuvens. Já eu considero que céu bonito é céu com nuvem, malhado. Até para dar uma descontinuada. Sem falar que nuvem é sempre esperança de chuva; e chuva é alivio, é graça, é um choro de alegria de toda a cidade-amante.


CA Ribeiro Neto
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* Tudo bem comigo, e com você?
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ESCUTANDO NO MOMENTO: Consolação - Vinicius de Morais, Toquinho e Clara Nunes

LENDO NO MOMENTO: Entradas e Bandeiras - Fernando Gabeira - Pg. 156 // Ladrão de Cadáveres - Patricia Mello - Cap. 29.

Boa Sorte.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Análise brega-lírica-sintátiva da música "Essa cidade é uma selva sem você" de Bartô Galeno

O Hermes me lançou o primeiro desafio: falar sobre as nuvens que tanto amenizam nosso calor fortalezense. Mas ele também disse que eu deveria postar a minha análise da música 'Essa cidade é uma selva sem você' do Bartô Galeno, então, primeiro postarei esta e na próxima semana eu posto sobre as nuvens!

* Para quem quiser ler a letra da música ou escutá-la é só clicar aqui!


ANÁLISE BREGA-LÍRICA-SINTÁTICA DA MÚSICA “ESSA CIDADE É UMA SELVA SEM VOCÊ” DE BARTÔ GALENO

Carlos Augusto Ribeiro Neto

Introdução

Bartô Galeno é um dos maiores cantores do estilo brega brasileiro. Nascido na Paraíba, lançou seu primeiro disco, “No toca-fitas do meu carro”, na década de 70, onde a música que tem o mesmo título que levou o álbum virou um sucesso nacional e é até hoje sua música mais conhecida. Durante as décadas de 70 e 80, junto com outros cantores bregas – como por exemplo Reginaldo Rossi, Agnaldo Timóteo, Waldick Soriano, Amado Baptista, Odair José, Raimundo Soldado etc. – Bartô fez muito sucesso com suas músicas. A biografia do cantor não é muito vasta na internet.
A música brega é, de certa forma, influenciada pela Era da Rádio e pela Jovem Guarda; de origem bem popular, marcante por seus cantores e compositores serem de origem bem humilde e, pela falta recurso, a qualidade instrumental, em determinados casos, deixa um pouco a desejar, mas que se compensou, quase sempre, pelas letras.
As composições bregas são sempre muito carregadas de sentimentos fortes como amor, ciúme, tristeza; traz recorrentemente a temática da traição e do abandono; tornando-se, assim, grande sucesso em bares e botequins, fazendo a alegria ou a tristeza de frequentadores destes locais, com suas mágoas sentimentais.


Análise brega

A música escolhida “Essa cidade é uma selva sem você” é um grande exemplo de música brega, apesar de ser uma das poucas a não falar em traição ou alcoolismo. Essa, assim como a maioria das músicas bregas, ganharam seu referido destaque justamente por seu caráter popular e de fácil identificação com seu público, que muitas vezes vê nestas letras a sua própria história narrada. O valor sentimental dessa música, então, é grande justamente por ser bem genérica a vários casos encontrados no ambiente em que é mais tocada: os bares.
Refiro-me ao termo genérico porque nem sempre os ouvintes são traídos, ou estão sendo acometidos de ciúmes ou se envolvendo com prostitutas – temas recorrentes nesse estilo –, o fato narrado fala apenas em paixão e saudade, sentimentos mais comuns a todos.
Para dar o teor dramático à música e realmente encaixá-la como música brega, os detalhes em seus versos fazem toda a diferença. Mencionando que sem a sua amada o eu-lírico viveria sem felicidade, iria enlouquecer e que poderia até morrer, o autor traz uma densidade de desespero dificilmente encontrado em diferentes estilos musicais.
Outros pontos pouco comuns em estilos distantes do brega é a entrega que o eu-lírico demonstra, quando diz que estando apaixonado, se entrega a esse amor destemidamente; e quando ele se condena a ser escravo dessa solidão. Posicionamentos um tanto distantes da cultura machista de força, mas que parece ganhar coro em seus ouvintes, o que pode ser interpretado por uma queda de máscara.


Análise lírica-sintática

A música de Bartô Galeno não foi meramente escolhida para esta análise somente por suas características bregas, mas por haver nela um grande valor lírico e gramatical. Ela foi muito bem escrita, apesar de não estar perfeita. Mas percebe-se em seus estrofes um composição madura, com frases bem construídas e variação de diferentes tipos de orações, algo pouco comum entre as canções mais populares.
A poesia tem estrofes definidas, dois sextetos, um quarteto e um quinteto, que é também o refrão, que se repete e muda o último verso no bis. Os sextetos, em sua formação clássica (AABCCB) – apesar do primeiro não construir a rima correta no quarto e quinto verso –, o quinteto, também (AABBA) e o quarteto, o mais misterioso nessa análise, com um padrão de rima pouco visto (AAXX).
Na primeira estrofe, há a contextualização de hora, de local e de causa de toda a poesia, ou seja, a dor sentida no presente momento, o contexto urbano – que na angústia da situação se torna selva –, e a própria solidão do eu-lírico, ao estar distante da receptora, respectivamente. Este primeiro verso compõe-se de advérbios de tempo, lugar e modo, constatando tais características, o que vai se comprovando na continuação do estrofe.
Na mesma estrofe também é notável uma certa pobreza na rima, quando o terceiro deveria rimar com o sexto verso e, no entanto, o pronome “você” é utilizado no final dos dois.
A segunda estrofe, que é, para mim, a mais bem construída de toda a música, tem uma grande variação de orações, que enriquece substancialmente a poesia. O primeiro verso, aparentemente, fui utilizada somente para compor a estrofe, contudo, nela há um grande valor rítmico, na qual, sem ela, a estrofe perderia muito em musicalidade. A partir da segunda, há um enrolo de orações onde, note-se:

a)o 2º verso é oração principal do 3º, que caracteriza restritivamente o defeito do amor mencionado no verso anterior;

b) o 4º, 5º e 6º verso são a exposição desse defeito, por isso o uso do “:”. O mais curioso é que o 4º verso é uma oração concessiva de duas orações principais, que são o 5º e o 6º versos, pois estes são, entre si, de mesmo valor lírico. Se tirássemos um ou outro da estrofe, manter-se-ia a semântica, mas não o sentido lírico e porque não, digamos, o sentido brega!
A mensagem transmitida nestes versos também merece atenção. Afinal, neles o autor faz uma conjeturarão, como se através de axiomas, formulasse uma teoria. Em outras palavras, interpreta-se que a experiência dolorosa do eu-lírico fê-lo entender o motivo do sofrimento; diagnosticando um defeito do amor, que seria essa entrega à paixão, já comentada na análise brega.
A terceira estrofe, repito, é a mais misteriosa da poesia toda. Para começar, sua estrutura em um isolado (AAXX). Segundo, ao final do solo instrumental, ao invés do cantor retomar o refrão – técnica muito utilizada por vários músicos –, Galeno retoma este verso, como se quisesse evidenciá-lo. O que faz este segundo ponto misterioso é justamente não se entender o porquê de evidenciar uma estrofe sem grandes versos, comparado aos demais.
Tanto lírico como sintaticamente, esta estrofe não contribui significativamente ao contexto, cabendo apenas ao estilo brega a justificativa de sua utilização e evidenciação. Aliás, é justamente aí que o contexto brega mais se acentua, quando o eu-lírico percebe-se escravo da solidão; contudo, considero o refrão mais dramático, o que inviabiliza considerar a repetição como mostra da intensidade brega.
O refrão, o trecho mais conhecido da música, tem todo esse destaque devido aos seus versos cheio de significados. A cidade torna-se uma selva, pois a solidão o amedronta e o diminui, deixando-o inofensivo. Apesar da comparação dual utilizada, o verso seguinte que, para mim, é a mais bonita da poesia toda:
Pago tão caro o valor dessa saudade”
Sintaticamente este verso nada influencia na estrofe, mas o peso lírico e brega é imenso. Afinal, é nessa frase que o autor resume todo o seu sofrimento: ele paga tão caro – com inofensividade, tristeza, loucura e quem sabe até a morte, – o valor dessa saudade – que carrega de sua amada. Os versos que o sucedem, servem, então, para ratificar que tipo de pagamento é esse.

A poesia tem seus defeitos, que não são críticos e que não diminuem a música mas também, aliás, servem de enredo para a linguagem popular, muito próxima da utilizada pelo autor. Daí então, “Essa cidade é uma selva sem você” é um grande exemplo de música brega, de música bem escrita e de música que atingi seu público-alvo.
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* Cansado, mas feliz!
* Meu twitter: @caribeironeto

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ESCUTANDO NO MOMENTO: As Atrizes - Chico Buarque

LENDO NO MOMENTO: Alguma Poesia - Drummond - pg. 366 // Ladrão de Cadáveres - Patricia Mello - cap. 24.

Boa Sorte.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Você pode até querer brincar de solidão, mas o mundo não é uma bolha de sabão

Começo citando meu mestre Drummond: "Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado."

Afinal, a nossa densidade demográfica aumenta e o nosso convívio diminui. Mas a sociedade é sempre surpreendente, vou dizer porque:

Primeiro caso, lembro que, para ir me encontrar com uma ex-namorada, eu pegava o Antônio Bezerra/Messejana aos domingos, no horário que era o mesmo do fim da feira. Então subia um monte de gente no ônibus fedendo a suor. Mas era suor de trabalho, de quem precisa daquilo para sobreviver. Mas eu, com a minha vidinha ganha, achava horrível aquele cheiro. Pensem bem, o que é melhor para aquele povo: eles ganharam o dinheiro deles e terem como sobreviver ou voltarem cheirosos para casa porque o filhinho da classe média não quer sentir seu fedor? No terceiro domingo de viagem até conversei com um deles, entender um pouco mais como é a vida deles. Quem sabe eles sentiram a minha falta aos domingos, já que o namoro acabou...

Segundo caso – parte 1 – com a aquisição de celulares com capacidade tocar mp3, as pessoas agora entram no ônibus, botam o fone no ouvido e se fecham na referida bolha do título. Já perceberam como é inconveniente você conversar com alguém que está com um fone no ouvido e que notadamente preferem ouvir a música do que conversar com um amigo que encontram casualmente no mesmo transporte? Você tem que repetir todas as suas perguntas porque certamente ele vai pedir para você dizer de novo.

Segundo caso – parte 2 – mas o que eu falei na parte 1 é apenas o que os filhinhos da classe média fizeram, a classe mais humilde, mais atenta ao que está ao seu redor, escuta é sem fone mesmo, coloca no som alto para todo mundo ouvir os forrós, raps e funcks da vida. Vocês não sabem como isso incomoda. Mas incomoda à minha bolha de sabão! Afinal, tem gente ali naquele ônibus, que está sem nada para fazer e está gostando do som alto. Nota mental: a minha bolha começa quando a sua termina. O som dele entrou na minha bolha, mas e a minha tolerância foi até aonde?

Segundo caso – parte 3 – é sabido por quem me conhece que eu leio dentro de ônibus, e estava eu lendo meu 'Cemitério dos Vivos', certo dia, quando senta um cara do meu lado e liga o celular, tocando um brega nas alturas. Fecho a cara e dou uma olhada violenta para o cabra ao meu lado. Fecho o livro com uma violência maior ainda e me dedico a olhar a paisagem, e até apreciando a música, que era um brega muito bom. Educadamente, o cara percebe que atrapalhou a minha leitura, pega o fone dele e coloca um lado no celular e o outro nas orelhas. Dessa forma, com um pouco de remorso do que fiz, aproveito a deixa e volto a ler meu livro. Apesar do remorso, oportunidade e piadas bestas não devem ser perdidas nunca!

Meu livro 'Desenho Urbano' fala muito disso. De como necessitamos do próximo e de como, por mais que desejamos ficar sozinhos, um olhar mais geral da situação, as vezes, é mais importante do que olhar apenas para seu umbigo. Até porque, quando foi a última vez que você limpou o seu?

CA Ribeiro Neto
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* E como eu disse quinta passada, aceito desafios de textos também!
* Twitter virou meu grande outdoor @caribeironeto
* Tudo bem comigo; e com você?
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ESCUTANDO NO MOMENTO:  O Cristo de madeira - Ana Carolina
LENDO NO MOMENTO: Alguma Poesia - Drummond - pg. 254 // Ladrão de Cadáveres - Patricia Melo - Cap. 20.

Boa Sorte.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A dança da alegria

Bem, pessoal, de hoje em diante, este blog não se chama mais Alegria! Alegria! Ela gira! Ela gira! e sim A dança da Alegria. Essa mudança não é apenas de título, mas também estrutural, pois ele não será mais um espaço para meus textos literários especificamente. Será, na verdade, agora, uma espécie de coluna de jornal, um folhetim, um espaço para minha mente curiosa e incansável escrever sobre coisas mais cotidianas ainda do que o de costume, mas na linha da observação aguda - cá entre nós, continuo na crônica!

Os motivos que me levaram a isso são simples: primeiro, porque estou num momento que quanto mais eu leio, menos escrevo - e estou lendo muito; segundo, em consequência do primeiro, estou ficando sem textos de estoque para postar, e como não quero postar todo o Desenho Urbano aqui, irei parar de postar os textos que faltam; terceiro, porque vou começar um novo livro, um agora de contos mais extensos, o que inviabiliza a postagem dele aqui no blog; quarto, pois assim, terei um maior contato com a escrita, de uma certa forma, parecida com a dos escritores que tanto admiro.

Portanto, este blog agora será feito de textos com alguma reflexão de algo presenciado por mim, alguma análise ou recomendação de algum livro que li ou de alguma música que escutei ou filme que eu assisti ou acontecimento que eu presenciei; gostaria também que vocês fizessem desafios para mim - pode ser uma palavra, um termo, um trecho, um desfecho, uma piada, uma história, uma mentira etc.

Para não abandonar de todo a série que eu estava formulando, próxima semana apresentarei a vocês um texto que tenha haver com o título da série que eu estava postando "Você pode até querer brincar de solidão, mas o mundo não é uma bolha de sabão" - já que a Herbenia gostou muito e eu também.

CA Ribeiro Neto
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* Para 1uem quiser acompanhar os eventos da Livraria Cultura - Fortaleza.
* Em breve, novidades no Eufonia.
* E tudo em paz.
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ESCUTANDO NO MOMENTO: Nada - meu irmão já está dormindo.


LENDO NO MOMENTO: Alguma Poesia - Drummond - pg. 115 // Ladrão de Cadáveres - Patricia Melo - cap. 16

Boa Sorte.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O ciclo sem fim ou Era para apenas rir II

Começando mais uma série hoje, 'Você pode até querer brincar de solidão, mas o mundo não é uma bolha de sabão' é uma série de crônicas presentes no meu livro Desenho Urbano, onde manifesto que sempre precisamos do próximo e que "não é possível ser feliz sozinho". Além de 'O ciclo sem fim ou Era para apenas rir II', essa série terá os textos 'Enxugando os pratos', 'Relativo', 'Sem barba, com amor, meu amor' e 'Tudo'.


O ciclo sem fim ou era para apenas rir II

Estava voltando para casa, mais precisamente dentro de um ônibus parado em frente a um semáforo que alternava de cor naquele momento, quando olhei para o outro lado da avenida, onde os carros passavam em sentido contrário e achei esse grito de largada do sinal verde muito parecido com uma debandada de uma manada. Sequencialmente e inexplicavelmente lembrei também do filme 'O Rei Leão', na cena em que o Mufasa, pai de Simba, morre atropelado por gnus.
Não tinha mais jeito, estava elaborando outra associação sociológica e não podia mais evitar. Sendo assim, escrevo o que visualizei.
 
Em casa, assistindo cenas no youtube, relembrei partes do filme que tanto assisti e que marca a minha vida como o primeiro choro dentro de um cinema, justo na cena da morte de Mufasa – é, teve outras vezes sim.
 
Como toda introdução, começo com a música 'Ciclo sem fim' onde todos os animais estão indo para aquela tal pedra para ver o batizado de Simba. Vejam bem, a versão em português, que é a que eu conheço e é a que influenciou, de alguma forma, os telespectadores brasileiros, trata de um rio que guiará a todos no ciclo sem fim “à dor e à emoção; à fé e ao amor” – ou seja, aos sentimentos vivenciados em nossas vidas – e que nos levará aos nossos caminhos: este ponto, para mim, é o norte de todo o filme, pois, apesar das adversidades da vida, fazemos parte de uma coletividade que compõe esse 'rio', esse 'ciclo'. Explico mais sobre isso mais na frente.
 
Na cena da morte de Mufasa – a cena que inspirou essa crônica e de maior abstração minha – vemos aí a abordagem da família como célula fundamental da sociedade, ainda que esse pensamento ande meio deturbado ultimamente. O trânsito caótico, com gnus no lugar de carros e hienas no lugar dos motoboys – no meu irônico pensamento –, é só um dos problemas enfrentados por milhares de pais de família que praticamente dão sua própria vida para garantir um futuro para seus filhos. Percebam que todos os gnus estão correndo para o mesmo lado, num “ciclo sem fim...”: no tal ciclo da introdução do filme há coisas boas e más que comporão o nosso caminho.
 
Quando Mufasa morre, Simba foge, ainda criança, e faz amizade com Timão e Pumba, que lhe apresentam uma nova filosofia de vida: Hakuna Matata. Uma filosofia em que “os seus problemas você deve esquecer. Isso é viver, é aprender”. Segundo os novos amigos, essa filosofia resolve todos os seus problemas, basta esquecê-los. Levando-se em conta que Timão é um espertalhão que sempre quer se dar bem e Pumba é uma cara, digamos, relapso em questão de higiene. Somando isso tudo à questão que Simba passa com eles o fim da infância, a adolescência e o começo da juventude, estamos falando do pensamento juvenil de rebeldia e contestação, em que a maioria das pessoas passam na adolescência, geralmente carregados de problemas familiares, perfeitamente encaixável na vida de nosso protagonista com a morte de seu pai.
 
Contudo, tem uma hora em que não dá mais para fechar os olhos para os problemas ao seu redor. É a hora de olhar para si e decidir o que há de se fazer. Isso acontece no filme também, numa de suas passagens mais bonitas. Simba está andando sozinho quando o Rafiqui – o babuíno que identifico como a consciência – começa a atormentá-lo com uma música esquisita e quando eles começam um diálogo, surge logo uma pergunta: “Quem é você?”. Bem cara de consciência, não? Ao Simba não saber responder-lhe, o babuíno afirma que ele é filho de Mufasa, e mais: afirma que este está vivo! Querendo ver seu pai, o jovem leão segue Rafiqui até o leito de um lago ou rio (rio de novo? Hum...), que mostra-lhe seu reflexo. Então Simba não ver mais seu próprio reflexo e sim, a fisionomia de seu pai, ao mesmo tempo em que o macaco diz: “Viu? Ele vive em você!”. Daí aparece nas nuvens a imagem de Mufasa que acusa o filho de ter o esquecido e depois diz uma frase que, ao meu modo de ver, é fundamental para se compreender o que afirmo agora: “Você é muito mais do que pensa que é. Você tem que ocupar seu lugar no ciclo da vida”. Pessoal isso nada mais é do que a teoria dos Papéis Sociais: cada um não é apenas um ser isolado e que só depende de si para sobreviver. Como célula da sociedade, precisa trabalhar junto com ela para o organismo social funcionar perfeitamente.
 
Depois o leão e o babuíno continuam a conversar sobre como é difícil retomar a vida depois de tanto tempo tentando esquecê-la. Então Rafiqui dá uma porrada na cabeça de Simba e quando este vai reclamar, aquele responde: “Não interessa! Está no passado! O passado pode doer, mas ou você pode fugir dele ou aprender com ele”. Está aí quebrada a filosofia Hakuna Matata e Simba volta para defender seu trono.
 
Quanto a esse negócio de trono, é só para embelezar a história infantil. O que há em jogo é a situação social. Scar, o vilão, representa a concorrência, o mercado de trabalho, a inveja.
 
Tudo que falei pode ser encarado de duas formas. Ou você entende o filme como um orientador ou como um manipulador. Eu, pelo menos, assisti esse filme quando criança e não deixei de ser rebelde e contestador em minha adolescência, então, se a intenção era manipular, não deu certo comigo.
 
Encerro este texto aqui, com a sensação de que aprendi algo. Nem que tenha sido apenas a ter cuidado ao atravessar uma rua repleta de gnus velozes.


CA Ribeiro Neto
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* Como diria o pai de Édipo, está tudo tão bem, que começo a me preocupar em quanto tempo durará a felicidade.
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ESCUTANDO NO MOMENTO: Bola de Meia - Seu Jorge

LENDO NO MOMENTO: Terminei o Cemitério dos Vivos, do Lima Barreto; em dois dias li o 90 Livros Clássicos para Apressadinhos; começarei agora o Alguma Poesia, do Drummond (versão fac-símile, linda!!) e estou lendo na Livraria Cultura o Ladrão de Cadáveres - Patrícia Melo - Cap. 12.

Boa Sorte

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Mais uma chance a Jairo e Flor

Ninguém comentou no texto 'Jairo e Flor' e você não sabem como isso entristece esse blogueiro... Não vou postar texto meu hoje porque ele merece mais uma semana de chance. Vai, então, aqui, um haikai do Quintana, o que a Herbenia mais gostou.


Convite

Basta de poemas para depois...
Ó vida, e se nós dois
vivessemos juntos?

Mario Quintana
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* Nenhuma novidade.
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ESCUTANDO NO MOMENTO: Se você pensa - Roberto Carlos

LENDO NO MOMENTO: Cemitério dos Vivos - Lima Barreto - pg. 218 (Voltei ao primeiro exemplar, pois emprestei o segundo a uma amiga) // Ladrão de Cadáveres - Patricia Melo - cap. 11

Boa Sorte

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Jairo e Flor

'Diferentes ângulos de uma conquista' chega ao seu final, com um texto em terceira pessoa, mostrando uma relação sem posicionamento masculino e feminino. 


Jairo e Flor


Jairo tem várias manias. Isso nunca lhe incomodou de fato, mas também ele não esperou conseguir nada através delas.

Uma de suas manias favoritas era ir ao cinema sozinho. Todo domingo ele ia a um cinema menos popular, chegava, lia um livro enquanto espera a sessão – Jairo sempre andava com um livro na mão –, assistia ao filme escolhido e depois ia embora. Assim, sem rodeio.

Num domingo, ele ia, atrasado, no ônibus, até o cinema costumeiro. Tudo estava nos conformes do ritual tradicional dominical, até que senta ao seu lado uma flor. Ela se senta lhe olhando, com um sorriso hiper simpático, ele responde com um sorriso tímido e fala, mentalmente, consigo.

- Que sorriso lindo, Meu Deus! Mas que diabo de sorriso foi esse de minha resposta? Pelo amor de...

Ele foi interrompido pelas seguintes palavras da flor ao lado:

- Desculpe-me, mas você pode me dizer em qual parada eu desço para ir ao Cine César Almeida?

- Ah, sim! Pode deixar que também estou indo para lá! Descemos juntos – respondeu ele, tentando retribuir agora, o sorriso no tom certo.
- Ah, obrigado! É que andei muito tempo presa a estudos, tédio e traumas, então não conheço muito esses lugares interessantes.
- Ahan, mas tenho certeza de que irá adorar o formoso Almeidinha! Lá não é muito movimentado, mas tem um ótimo ambiente! A próxima parada é a nossa. Vamos?

Desceram do ônibus e foram em direção ao cinema. Como era próximo, não cabia uma pergunta de resposta grande, então Jairo foi no básico.

- Meu nome é Jairo. E o seu?
- Flor! Prazer!
- Não acredito! Foi exatamente numa flor que pensei quando você sentou ao meu lado! Por favor, não entenda isso como uma cantada! (mas acabou sendo!)
- Tudo bem! Não entendi dessa forma, não! (mas é claro que foi!)


Na bilheteria, foram informados de que estava faltando energia naquela parte da cidade e que, caso resolvessem esperar, o filme iniciaria assim que a luz do local retornasse. Diante do imprevisto, Jairo convidou-a para um sorvete e foi prontamente respondido positivamente.

Os dois vão à sorveteria ao lado do cinema, pedem o sorvete, ele faz questão de pagar e depois eles vão à uma mesa. Flor recomeça a conversa.

- Você vem sempre a esse cinema?
- Todo domingo! É como se fosse uma de minhas atividades semanais.
- E onde está a sua companhia?
- Não, não! Sempre venho sozinho! Amizade não me falta, é questão de gosto mesmo!
- E eu pensei que era uma louca em vir ao cinema sozinha! Convidei umas amigas, mas todas disseram não! Para elas, cinema dá sono!
- Já escutei coisas desse tipo também. Mas eu, pelo contrário, me envolvo quando o filme merece. Já chorei, já bolei de rir, já explodi de raiva. Talvez por isso, prefiro vir ao cinema sozinho, para me sentir somente eu e a tela grande!
- Que massa! Eu não conheço muito de cinema, como te falei, estive enclausurada por dentro e por fora de mim... mas não vamos falar sobre isso!
- Concordo! Mas é interessante você falar que esses problemas te afastaram de divertimentos como o cinema. Eu, quando estou muito triste, sinto mais vontade ainda de sair. Pra mim, ficar em casa só piora as coisas!
- Bem urbano, você, hein? – risos – aposto que estuda Arquitetura!
- Errou feio! Psicologia!
- Hum! Deve ser um curso maravilhoso! Eu entrei agora em Ciências Sociais, em Agosto começam minhas aulas!
- Massa! É de algum partido político?
- Não. E nem tenho pretensão de ser! Complicaria meus estudos!
- Isso é verdade. Mas também é preciso seguir uma linha de pensamento de estudiosos de sua área.
- Tem razão, mas deixemos pelo menos eu começar o meu curso!
- De acordo! – breve, minúscula, pausa – Que filme pretende assistir hoje?
- Aquele trash... esqueci o nome... do diretor Thiago... Ah, esqueci o sobrenome dele também. Mas é aquele da cabeçona!
- Sei, sei. Dizem que ele é pragmático demais, mas não acho que isso se reflita em seus filmes. Eu ia assistir um drama sem pé nem cabeça, mas se não se incomodar com minha presença, posso assistir esse filme do Thiago com você!
- Eu adoraria! Mas não é você quem gosta de assistir filmes sozinho?
- É! mas quando a companhia é boa, eu abro uma exceção.

Sorriram-se, no tom certo. Jairo adorou o jeito eufórico dela falar, já Flor, ficou embebecida com o volume de palavras dele.

Constataram que a luz voltou àquela região. Subitamente olharam-se, entenderam-se e beijaram-se e foram andando para o cinema de mãos dadas.



CA Ribeiro Neto
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 * Próxima semana, falarei sobre as eleições, seja o resultado que vier! hehe
 * Tudo tranquilo.
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ESCUTANDO NO MOMENTO: Choro Negro (Paulinho da Viola)

LENDO NO MOMENTO: Cemitério dos Vivos - Lima Barreto - pg. 186 (agora com uma nova edição que ganhei de meus colegas de trabalho!) // Ladrão de Cadáveres - Patricia Melo - cap. 5.

Boa sorte.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Mundo abstrato

Dando sequência à série 'Diferentes ângulos de uma conquista', a poesia 'Mundo abstrato' é mais uma poesia do meu pseudônimo feminino Magali do Riacho. Mulheres, por favor, digam-me se está um pouco parecido com o que uma mulher diria!


Mundo abstrato


Não convém dizer agora
Tudo que o mundo afora
Já soube antes de mim.

Se dizem que meus olhos
Revelam meu amor óbvio,
Porque vou me repetir?

Desculpa se estou tão direta,
Encurtando assim essa conversa,
Mas a ansiedade me apavora.

Não estou pedindo ou covocando a algo,
Só quero deixá-nos habituados
Ao rumo dessa história.

Gosto de ti, isto é um fato,
Um tanto quanto abstrato,
Ou de difícil compreensão.

Encerro aqui o meu discurso,
Você tem todo o tempo do mundo
Pra entender essa bagunça. Ou não.


Magali do Riacho (CA Ribeiro Neto)
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* Na foto de capa do blog, mais uma vez, Raíssa Ribeiro.
* Próxima terça, meu aniversário - 24 anos!
* Tudo normal.
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ESCUTANDO NO MOMENTO: Inclassificáveis - Ney Mato-grosso

LENDO NO MOMENTO: O Cemitérios dos Vivos - Lima Barreto - pg. 123

Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Gentilezas à parte

Iniciando mais uma série "Diferentes ângulos de uma conquista", posto uma poesia de eu-lírico masculino, do Wallace Lago, que é a "Gentilezas à parte". A poesia trata de uma tentativa de conquista dentro do ônibus. Dá sequencia à essa série a poesia "Mundo Abstrato", do meu pseudônimo Magali do Riacho e o conto "Jairo e Flor".

Gentilezas à parte

Pode sentar-se!
Um cavalheiro não pode
Deixar uma dama em pé
Quando um acento lhe vem à sorte

Levar meus livros?
Quanta gentileza
De uma dama jovial
De indescritível beleza

Obrigado pela delicadeza
De segurar meus livros
Mas quero que perceba
Assim, em sigilo
Que dentro da minha agenda
Há um papel que tem escrito
Um número pra telefonema
pro meu aparelho fixo

Pegue e guarde consigo
O que tento te passar
Assim, saberemos se eu consigo
Te decifrar
Se não deu, eu desisto
Pode me devorar!

Wallace Lago
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* Desde já, adiando que interromperei a série, para fazer alguma homenagem ao meu próprio aniversário, que será no dia 28 desse mês.
* Grupo Eufonia, toda terça, as 19:10!
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ESCUTANDO NO MOMENTO: Rugas - Nelson Cavaquinho

LENDO NO MOMENTO: Cemitérios dos Vivos - Lima Barreto - pg. 66 / A História da Riqueza do Homem - Huberman - pg. 24 (Antes que pensei que não li esse, da semana passada para essa, antes eu estava no prefácio, e agora estou no livro mesmo!)

Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Miranda e a morena da janela

Encerrando a série 'Tudo ao meu redor', conto a história de Miranda, um colega meu, que aqui se torna personagem para contar uma história bem curiosa do quanto nos preocupamos com o que os outros pensam de nós, mesmo sem saber o verdadeiro ponto de vista dos tais 'outros'.



Miranda e a morena da janela



Certa vez um amigo meu me contou uma história que achei curiosa por demais; daí, aproveitei a ocasião e pedi permissão para transformar livremente a história dele em crônica – como sempre.
Falo de Miranda, um amigo que trabalha na UFC e que, infelizmente tem paralisia nos membros inferiores. Ele é um cara bem comunicativo, brincalhão e tem uma voz bem imponente, bonita, que aposto que faz muito sucesso com as mulheres.
O caso aconteceu quando ele era mais jovem, no seu tempo de universitário, num momento em que ele estava em um bar, com os amigos, tomando umas cervejas. Em determinado momento ele percebe que havia uma garota debruçada na janela de uma casa próxima ao bar a encará-lo.
Então, ele passa a retribuir a paquera, admirando-na a pele morena, os cabelos negros presos no estilo rabo de cavalo e o pouco de decote que podia ser exposto naquele tempo. Entre sorrisos e olhares trocados, eles ficaram a conversar assim, sem palavras.
Como ele estava na cerveja, o efeito diurético da bebida começou a incomodar. Miranda ficou naquela de que, quanto mais tempo demorar para se aliviar, mais o incômodo aumentaria, além do que, invariavelmente pensa-se mais na questão, o que evidencia mais o problema, piorando a situação. Porque ele simplesmente não ia ao banheiro? Porque se ele se levantasse, mostraria sua deficiência e o uso das moletas, o que geralmente findaria o interesse da moça da janela.
Em certo momento, ele abstraiu-se do mundo ao seu redor para pensar numa alternativa segura para o caso, até que percebeu que não podia esperar mais muito tempo. Olhou para a janela da moça e atinou-se que ela não estava mais lá. Correu, apesar das circunstâncias, o mais rápido que pôde, ao banheiro e aliviou-se da necessidade fisiológica.
Ao sair do interior do bar, olhou logo para a janela da moça, na expectativa de que a morena não tenha voltado ainda ao posto de antes.
De fato, ela não estava mais na janela. Ela estava agora na calçada de sua casa, curiosamente também amparada por moletas. Miranda percebeu que pelo mesmo motivo que ele não queria se levantar da cadeira, ela usava a janela de camuflagem e que, sem defesas, sorriam-se e olhavam-se, agora harmoniosamente.
Miranda não tinha mais escolha. Agora tinha que se aproximar e se municiar com sua imponente voz.


CA Ribeiro Neto
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* Tudo relax! Tudo tranquila! Numa boa!
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ESCUTANDO NO MOMENTO: Mambembe - Chico, Nara e Bethania.

LENDO NO MOMENTO: Os Lusiadas - Camões - pg. 284 (Desisti dele, está muito chato!) / Cemitério dos Vivos - Lima Barreto - pg. 22 (Estou no comecinho mas já está fantástico) / A História da Riqueza do Homem - Huberman - Pg. 17 (Lendo também, devido ao Amigo Secreto Literário da Livraria Cultura)

Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Respeitem meus cabelos

Mais um texto da série 'Tudo ao meu redor', 'Respeitem meus cabelos' é uma crônica que trata da experiência de um senhor na terceira idade. Tento utilizar um vocabulário um pouco mais rebuscado, para ambientar o narrador-personagem, e também, para ironizar o padrão visto por aí.




Respeitem meus cabelos



Como as pirâmides etárias esboçam, principalmente em países subdesenvolvidos, a velhice é para poucos. Não só porque é natural que alguns faleçam pela estrada da vida, mas também porque é imprescindível um bom estado de espírito para conviver com as vicissitudes que, por mais extraordinário que pareça, podemos considerar como novidade.
Recordo-me quando, ainda adulto, tingi os cabelos alvos para disfarçá-los, já em porção considerável. Foi uma experiência somente para me arrepender; só não esqueci mesmo para não correr o risco de cometer o mesmo pecado novamente. Quem me conhecia fez traquinagens de tudo quando é jeito, algumas até de cunho sexual; e quem não me conhecia olhava-me de modo desdenhoso, como se houvesse algo de errado em mim. Em poucas horas percebi que antes assemelhar-se a um velho do que a alguém não natural.
Dediquei-me, então, a deixá-los bonitos. Talvez seja coincidência, mas nesse mesmo período o meu cabelo esbranqueceu-se de vez. Meus alunos, nas aulas de matemática, até galhofavam com isso, mas como nunca foi muito vaidoso, não me incomodei e continuei a cultivar meus cachos de algodão.
Só fui perceber mesmo as consequências da mudança de coloração, quando, num período de provas do colégio, eu estava tão cansado que me permiti deixar a barba por fazer, saí com uma camisa amassada, um jornal embaixo do braço e fui pagar umas contas numa farmácia. Logo que chego, vou compor o final da fila, já bem extensa. Daí, deparo-me com algumas pessoas me olhando até que uma bela jovem dirigi-se a mim, recomendando-me que vá para a fila dos idosos. Não soube bem o que dizer na hora, mas como estava com pressa e os olhos dos demais presentes eram de comum acordo, fui para a fila alternativa. Por sinal, acabei descobrindo que as filas dos preferenciais demoram mais, sem que, com isso, torne-se menos compensatória. Parece-me que há a cultura dos velhinhos pagarem sempre as contas de várias casas, o que, em minha mente, conjecturo como antiético.
Pois bem, como toda mudança etária – aos 12, 18, 30 e 65 anos – não acontece de uma hora para outra, ainda não estava me sentindo um velho, até que precisei pegar um ônibus. Ainda na parada de ônibus, estava a lembrar de minha juventude – talvez isso seja característica da velhice – e dos muitos ônibus que peguei; inclusive da vez que, de tão acostumado a ir em pé e os outros segurarem meus livros, numa das únicas vezes que pude sentar-me, segurei a pasta de uma moça e quando fui me levantar para descer, eu quem disse “obrigado” ao invés dela – mau educada –, que me olhava como se prendesse uma gargalhada.
Mas, enfim, subi. Já começou estranho porque eu sabia que iria subir pela porta da frente, mas não imaginava que o motorista fosse se atinar a isso e que ele pararia a porta dianteira logo a minha frente. Eu nem precisava mostrar a carteira de aposentado se não quisesse, mas fi-lo por orgulho.
Logo depois, uma mãe obriga o filho a levantar-se de seu assento para que eu possa seguir meu caminho confortavelmente e em segurança. Sinceramente, fiquei com a sensação de estar sendo inconveniente, sentei, sentindo-me meio culpado, até que veio uma frase em minha mente:

Estou velho.

Com isso, a culpa sumiu, mas não por isso fiquei tranquilo. Assim como a mudança etária, assumir a terceira idade também leva tempo – que é o que menos temos no momento. De qualquer modo, sábado tem baile da Associação.


CA Ribeiro Neto
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* Tudo em paz!
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ESCUTANDO NO MOMENTO: Incelença - Nara Leão, Zé Keti e João do Vale - Show Opinião

LENDO NO MOMENTO: Os Lusiadas - Camões - pg. 234

Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Em defesa dos canhotos

2º texto da série 'Tudo ao meu redor', 'Em defesa dos canhotos' é uma crônica que enumera curiosidades sobre os canhotos. Apontado por Paulo Henrique Passos como a minha melhor crônica, eu não sei se concordo, mas considero-a entre as principais.



Em defesa dos canhotos



Vivo um caso de fascínio e rancor com as poesias de Drummond. Fascínio por considerá-lo o poeta brasileiro mais completo que já li e rancor porque, ao lê-lo, não me senti mais capaz de fazer poemas, dedicando-me quase exclusivamente às prosas. Porém, ao ler o poema 'Hipótese' do mestre que diz assim “E se Deus é canhoto/ e criou com a mão esquerda?/ Isso explica, talvez, as coisas deste mundo” deu-me um comichão em minha mão esquerda que pulsava por caneta e papel.
Canhoto que sou, devo manifestar-me sobre o que sempre vejo escrito por aí. É tanta coisa louca, que não sei como a mente humana pode inventar tanta coisa em cima do nada. A principal é que os canhotos tem relação com o diabo, mas também tem outras coisas que falam, como, por exemplo, chamar canhotos de deficientes físicos, sem falar dos que são obrigados a usar a mão direita no colégio.
Nasci numa família em que três de um total de cinco são canhotos, então, não me considero exceção. No entanto, encontrei em vários lugares que cerca de 10% da população mundial é canhota, o que nos torna um mercado consumidor nada atraente. Tesouras, carteiras, talheres, abridores de lata etc. Há vários objetos desenvolvidos para a mão direita e que é complicado achar similares para a outra mão.
Há uma piadinha nada científica que os canhotos defendem que é: Deus criou poucas pessoas especiais, o resto é destro. Realmente não tem nada de científico, mas enumerando alguns nomes podemos repensar esse caso. Na arte e na ciência, é incrível o que podemos encontrar: Aristóteles, Bach, Michelangelo, Bob Dylan, Chaplin, da Vinci, Hendrix, Einstein, Kafka, Mozart, Newton, Nietzsche, Picasso, Goethe, Ringo Starr, McCartney (50% dos Beatles!).
Na política então, nomes importantes, mas alguns não tão especiais para Deus, eu acho: Simon Bolivar, Napoleão, Bush, Fidel, Churchill, Clinton, Ford, Gandhi, Alexandre, O Grande, Kennedy, Obama, Ramses II, Truman, Rainha Vitória e mais um monte de reis ingleses.
No Brasil, diminuí a lista para nomes realmente mais interessantes. O nosso esporte tem muito o que agradecer aos canhotos como Romário, Garrincha – que numa seleção brasileira ideal e a-histórica eles certamente seriam convocados – e o grande Ayrton Senna – talvez a pessoa que mais representou as características do povo brasileiro no campo do esporte mundial.
Nas artes encontrei nomes como Scandurra, Nachtergaele e Jô Soares, mas o destaque fica para o que é considerado pela maioria dos leitores, o maior escritor que o Brasil já produziu, Machado de Assis. No dom científico, o mais conhecido canhoto brasileiro, Santos Dumont, o inventor do avião e do relógio de pulso – seria esse o motivo para todos, inclusive os destros, usarem o relógio na mão esquerda?
Voltando à história de que relacionam os canhotos ao diabo, nós também não colaboramos contra isso. O dia do Canhoto é justamente no dia 13 de Agosto, tanto o dia quando o mês carregam lendas de terror.
Cientificamente o que se tem em consenso é que o canhoto desenvolve mais o lado direito do cérebro, mas há teorias acreditando que é esse lado direito que domina a criatividade, as emoções e a intuição, o que poderia indicar tantos grandes artistas e líderes assinando suas obras com a mão esquerda.
Poeta que sou, digo: os cientistas que me perdoem, mas o cérebro não tem nada haver não, o que destaca mesmo os canhotos dos demais é que a mão esquerda, devido à proximidade, recebe com mais energia os fluidos emanados do coração.

CA Ribeiro Neto
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* Na próxima terça, 1ª Sarau do Eufonia, com o tema PERDA;
* Tudo em paz em minha vida.
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ESCUTANO NO MOMENTO: Soneto do teu corpo - Martinália

LENDO NO MOMENTO: Os Lusiadas - Camões - pg. 188

Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Porra de Politicagem pecuniária!

Começando hoje mais uma série 'Tudo ao meu redor', faço uma seleção de 4 crônicas que fiz, todas esse ano, e que não entraram no meu livro, Desenho Urbano. 'Porra de Politicagem Pecuniária' eu fiz no começo do ano, na esperança de trabalhar na área em que me formei. Guardei-a até hoje, para publicá-la quando conseguisse um emprego. Já que não estou nessa área mesmo e estou feliz em meu trabalho, eis a crônica. Nessa série entra ainda 'Em defesa dos canhotos', 'Respeitem meus cabelos' e 'Miranda e a morena da janela'




Porra de Politicagem Pecuniária!

Eu tenho um sonho: trabalhar com política. Não quero ser político, não me interesso nem um pouco pela carreira. Mas sou apaixonado pela política, com a ideia de trabalhar pela coletividade, pelo público, para pessoas, diretamente em prol da sociedade.
Mas um bocado de “P” vem atrapalhar com meus planos. Um bando de porras-loucas que confundem política com poder, público com privado, fazendo politicagem, um partidarismo pervertido, uma pouca-vergonha sem pausa.
Ficam a paralisar os processos legislativos, a providenciar o supérfluo, a persuadir a população com suas promessas que não serão cumpridas pontualmente, a permear os partidos e cargos públicos, por propósitos incertos.
Parece mais que eles precisam pisar na gente para perceberem-se primeiramente importantes. É muita pompa, paletó, gravatas no pescoço, pizzas nas CPI's, pensões alimentícias, retribuições pecuniárias, paradas militares para recordar as passagens históricas que, como percebemos, pouco tem haver com a população.
Meu sonho virou pesadelo. É complicado supor mudanças, produzir esperança, acreditar que corrupção pode ser impedida, punida e, por fim, expirada.
Chega dessa letra. Agora digo-vos que estudo crendo nisso. Estudo com a intensidade de quem sente que tudo deve ser diferente e que, acreditem, assim será.


CA Ribeiro Neto

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* Tempos quietos as vezes me assustam... parece que quando demora para acontecer algo é que vem algo importante por aí.
* Pois é, é isso.

ESCUTANDO NO MOMENTO: Quase fui lhe procurar - Luiz Melodia

LENDO NO MOMENTO: Os Lusiadas - Camões - pg. 168

Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Release de Victor Hudson

Finalizando a série 'Experimentar...', este texto foi-me encomendado por meu amigo Victor Hudson, guitarrista da banda Baque Lírico, para explicar seu trabalho musical em seu myspace.



Release - Victor Hudson

Victor Hudson, guitarrista e violonista cearense, dispensa apresentação quando se é escutado, mas não o sendo, vamos às palavras. Seja em encontros informais de amigos ou em seus ofícios de professor de violão ou em bandas que toca –  Bonilas e Baque Lírico - ou tocou – Fulano Falando; - , ele sempre demonstra seu carinho e dedicação ao instrumento que escolheu para aderir ao corpo. Seu contato com a guitarra e o violão é intenso, afinal, tê-los como comida, dormida e respiração o faz se especializar e se experimentar cada vez mais, em diferentes sons. Do maracatu ao samba, do rock à músicas infantis, do xote ao choro, do frevo à bossa nova, do brega ao blues, Victor Hudson se aventura por ritmos diversos que cresceu escutando ou que buscou escutar. Suas composições são perfeitamente harmoniosas, tanto no sentido musical, quanto no literal; a relação entre letra e instrumento são equiparadas, cada um exercendo sua função devidamente e, principalmente, sua música demonstra duas características encontradas no músico e no ser que é e que, aliás, é muito difícil se encontrar juntas: intimismo e energia.


CA Ribeiro Neto
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* Na foto, Raíssa Ribeiro como noiva da quadrilha.
* Sem novidade nessa semana.
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ESCUTANDO NO MOMENTO: Descoberta - Los Hermanos

LENDO NO MOMENTO: Os Lusiadas - Camões - pg. 107 / Revista da Cultura - mês de Agosto

Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Mais um dueto - ACCA

Mais um dueto postado aqui no blog, este feito com Ana Cláudia, que assina seus textos como ACUA, pessoa muito especial para mim! Este poema não foi produzido do mesmo modo do outro, onde cada um colocava um número de fixo de palavras; ele nasceu de uma conversa de msn, e depois lapidado para formar estes versos.


Na metáfora do canibalismo,
quem devora ou é devorado
Seus braços e abraços?
Seus olhos e tatos?

Na metáfora do canibalismo,
quem mutuamente se metamorfoseia em presa?
Aquele que se deixa ser? Aquele que finge atacar?

Na metáfora do canibalismo,
ambos (se) consomem, ambos (se) protegem,
ambos (se) harmonizam.

Não há polo separado. Tudo é conjunto, uno...

Acua e CA Ribeiro Neto, via MSN.
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* Ah, é sem título mesmo! Não encontramos um que nos satisfizéssemos!
* Eufonia à mil maravilhas! Quem quiser participar, é só avisar!
* De resto, tudo tranquilo!
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ESCUTANDO NO MOMENTO: Tudo - Gonzaguinha

LENDO NO MOMENTO: Os Lusiadas - Camões - pg. 77

Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim