A dança da alegria

A dança da alegria - CA Ribeiro Neto

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Dos meios de transportes - ontem, pelo Limão, e hoje, por mim

Amigos, posto mais um texto antigo, que já passou por esse blog antes, mas foi em 2008. Vou relacionar aqui o meu texto '10% Móvel', que fala sobre aeroporto, com um trecho do livro 'Triste Fim de Policarpo Quaresma', de Lima Barreto, que fala sobre os trens. Independente do meio utilizado, os dois falam do ambiente das chegadas e despedidas.


"É uma emoção especial de quem mora longe, essa de ver chegar os meios de transporte que nos põem em comunicação com o resto do mundo. Há uma mescla de medo e de alegria, ao mesmo tempo que  se pensa em boas novas, pensam-se também más. A alternativa angustia...
O trem ou o vapor como que vem do indeterminado, do Mistério, e traz, além de notícias gerais, boas ou más, também o gesto, um sorriso, a voz das pessaos que amamos e estão longe." - Triste de Fim de Policarpo Quaresma [parte II, capítulo I]

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10% móvel



Sabrina estava abismada. Seu último namoro terminou há sete meses e ela continuava triste e só. Não se sabe ao certo se ela não estava com sorte ou eram consequências do auto-isolamento, mas o fato era que ela estava carente e não estava fazendo esforço para reverter o quadro.
 
Certa vez, ela escutou um amigo dizer que é ótimo o ambiente de aeroportos. Seja na alegria ou na tristeza, das saídas e chegadas; seja na saúde ou na doença, dos passeios ou dos imprevistos. No aeroporto, ou você chora, ou é solidário às lágrimas dos outros. Sem falar que Sabrina não tem conhecidos com o costume de viajar de avião. Então, seria o lugar prefeito para não encontrar ninguém.

Ela foi ao aeroporto afim de ver pessoas e imaginar suas histórias. Se gostasse, escreveria, se não, olhava para outra pessoa [ela sempre andava com um caderninho]. Chegou, foi à praça de alimentação, pediu um café [desistiu de comer depois que examinou os preços] e começou.
 
- Aquele cara de terno e gravata, falando aperreado ao celular, mas tomando cuidado para não ser escutado... tem cara de vereador que está sendo investigado por corrupção. Conversando com assessores e medindo as palavras devido à quebra de sigilo telefônico... essa história já está trivial, acontece sempre...

Continua.

- Aquele bebezinho, no colo de sua mãe, recebe o que pode ser o último beijo do pai, que se despede. Quem sabe seus “dias dos pais” serão tristonhos. Quem sabe a mãe dele se junta com um ótimo padrasto. Qual escrevo? A história boa ou a ruim? Melhor não escrever...

Próxima pessoa.

- Aquele rapaz, que parece muito com o Caio, meu ex... do lado daquela mulher, que parece minha ex-sogra e aquela turma, que parece muito com os amigos do meu ex e que, inclusive, estão apontando para mim.

Um dos pontos positivos do aeroporto deu errado. Realmente era o Caio, a ex-sogra [que tentou segurá-lo para que não fosse até ela...] e a velha turma. Ele, sozinho, se aproxima de Sabrina e começa a conversa.

- Veio se despedir de mim também?
- Não! Eu vim passear... é... deixa para lá... você está indo para onde? [Ai meu Deus, ele está rindo de mim!]
- Para Espanha. Fazer pós-graduação em Administração em Agronegócio.
- Legal! Boa sorte!
- Olha, eu já vou! Meu embarque é agora! Tchau.
- Tchau! Boa sorte!

Sabrina estava abismada. Ele se formou, e ela não sabia. Ia viajar, e ela não sabia. E o pior, tinha umas garotas que estavam com a turma, que ela não sabia quem eram!

Tomou o último gole do café e começou a chorar. Mas foi tempo chorando soluçadamente até que o garçom lhe trouxe outra xícara de café sem ela pedir. Na hora, ela nem se tocou, bebeu mesmo e junto com a calma, chegou a pergunta. Quem pediu esse café? Sabrina chamou o garçom.

- Desculpe, mas eu não tinha pedido esse café.
- Nós sabemos, Senhorita. Foi cortesia da casa!
- Ah sim! Mas eu faço questão de pagar. Me dê a conta com os dois cafezinhos, por favor!
- Pois não! - Ele pegou um recibo, escreveu “seu telefone” e entregou-a.
- Desculpe, mas eu não entendi.
- É a única coisa que quero pelos cafés!
- Ah não! Está aqui o dinheiro, eu fiz a conta de cabeça. - e entregou o dinheiro.
- Então o telefone pode ser como gorjeta?

Sabrina estava abismada. Pegou o papel e anotou seu número de celular e seu nome. Ele agradeceu e se retirou. Antes mesmo dela sair do aeroporto, recebeu uma mensagem que diz assim.

“Esqueceu o seu troco, está aqui: -número- Daniel. Espero não ter lhe deixado abismada, mas é que não gostei de lhe conhecer triste e só. Podemos nos conhecer de novo?”.


CA Ribeiro Neto
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ESCUTANDO NO MOMENTO: Carolina - Nara Leão
LENDO NO MOMENTO: Triste fim de Policarpo Quaresma - pg. 75.



Boa Sorte || ApontArte

5 comentários:

Hassan, o Árabe disse...

ô, carlinhos, taí: simplicidade. gostei. =]

a título de curiosidade, quando eu tinha insônia, costumava ir pra lá passar um tempo da madrugada. é um bom lugar pra recorrer em vários momentos...

abraço!

Hassan, o Árabe disse...

putz... esqueci de escrever q o local em questão era o aeroporto...

hermesveras disse...

Poucas vezes fui a um aeroporto, mas já me imaginei diversas vezes me despedindo de meus maiores amores, ou me despedindo. A vida é o eterno encontro, desencontro e retorno, né? Essa tua crônica é boa, mas me falta algo, eu não sei dizer bem o quê, mas acho que falta mais Carlinhos no texto, mais visceras, entende? Como se fosse escrito mais com técnica e menos com alma. Mas acho que muitas crônicas tem essas características, principalmente por ser um texto diário, ou semanal, a frequência me parece estranha, a arte domada sempre me causa estranheza. Enfim, pararei de divagar. Beijo.

A moça da flor disse...

poxa me identifiquei imensamente...
no seu melhor estilo: simples, com um colorido especial pra coisas cotidianas.
Chorei junto com Sabrina.

Paulo Henrique Passos disse...

essas possibilidades do aeroporto me lembraram as possibilidades que os taxistas também têm. Pôxa! vi agora que só o que tem no aeroporto é taxista... Se um deles fizer como Sabrina, acho que pode render um bocado de histórias.