A dança da alegria

A dança da alegria - CA Ribeiro Neto

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Miranda e a morena da janela

Encerrando a série 'Tudo ao meu redor', conto a história de Miranda, um colega meu, que aqui se torna personagem para contar uma história bem curiosa do quanto nos preocupamos com o que os outros pensam de nós, mesmo sem saber o verdadeiro ponto de vista dos tais 'outros'.



Miranda e a morena da janela



Certa vez um amigo meu me contou uma história que achei curiosa por demais; daí, aproveitei a ocasião e pedi permissão para transformar livremente a história dele em crônica – como sempre.
Falo de Miranda, um amigo que trabalha na UFC e que, infelizmente tem paralisia nos membros inferiores. Ele é um cara bem comunicativo, brincalhão e tem uma voz bem imponente, bonita, que aposto que faz muito sucesso com as mulheres.
O caso aconteceu quando ele era mais jovem, no seu tempo de universitário, num momento em que ele estava em um bar, com os amigos, tomando umas cervejas. Em determinado momento ele percebe que havia uma garota debruçada na janela de uma casa próxima ao bar a encará-lo.
Então, ele passa a retribuir a paquera, admirando-na a pele morena, os cabelos negros presos no estilo rabo de cavalo e o pouco de decote que podia ser exposto naquele tempo. Entre sorrisos e olhares trocados, eles ficaram a conversar assim, sem palavras.
Como ele estava na cerveja, o efeito diurético da bebida começou a incomodar. Miranda ficou naquela de que, quanto mais tempo demorar para se aliviar, mais o incômodo aumentaria, além do que, invariavelmente pensa-se mais na questão, o que evidencia mais o problema, piorando a situação. Porque ele simplesmente não ia ao banheiro? Porque se ele se levantasse, mostraria sua deficiência e o uso das moletas, o que geralmente findaria o interesse da moça da janela.
Em certo momento, ele abstraiu-se do mundo ao seu redor para pensar numa alternativa segura para o caso, até que percebeu que não podia esperar mais muito tempo. Olhou para a janela da moça e atinou-se que ela não estava mais lá. Correu, apesar das circunstâncias, o mais rápido que pôde, ao banheiro e aliviou-se da necessidade fisiológica.
Ao sair do interior do bar, olhou logo para a janela da moça, na expectativa de que a morena não tenha voltado ainda ao posto de antes.
De fato, ela não estava mais na janela. Ela estava agora na calçada de sua casa, curiosamente também amparada por moletas. Miranda percebeu que pelo mesmo motivo que ele não queria se levantar da cadeira, ela usava a janela de camuflagem e que, sem defesas, sorriam-se e olhavam-se, agora harmoniosamente.
Miranda não tinha mais escolha. Agora tinha que se aproximar e se municiar com sua imponente voz.


CA Ribeiro Neto
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* Tudo relax! Tudo tranquila! Numa boa!
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ESCUTANDO NO MOMENTO: Mambembe - Chico, Nara e Bethania.

LENDO NO MOMENTO: Os Lusiadas - Camões - pg. 284 (Desisti dele, está muito chato!) / Cemitério dos Vivos - Lima Barreto - pg. 22 (Estou no comecinho mas já está fantástico) / A História da Riqueza do Homem - Huberman - Pg. 17 (Lendo também, devido ao Amigo Secreto Literário da Livraria Cultura)

Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim

6 comentários:

Hermes disse...

Ah meu chapa, essa eu já li faz tempo, então vai ficar valendo só o comentário da crônica anterior! heauheauhaeau. Já te comentei essa. Abraço

Paulo Henrique Passos disse...

E deve ter feito sucesso com essa também, hein

Thiago César disse...

miranda, chico pedrosa...
teus amigos têm uns nomes deizano!

Pedro Gurgel disse...

Mermão...

Esses amigos do Carlim! São iguais a ele...

Cuidado não, viu?!?!

E pense numa vontade de saber o depois...

Herbenia Freitas Ribeiro disse...

que história, Guto. Me tocou. É o tipo de história que a gente pode transpor pra muitas situaçoes da nossa vida. Inclusive o fato, de a gnt, muitas vezes, por orgulho, vaidade se prende a coisa frívolas, como o medo de ser percebido nas nossas fragilidades. Sempre querendo mostrar so o nosso lado "belo" Mexeu muito comigo, fico feliz que voce tenha essa mente tao fértil, perspicaz e atenta pra captar histórias do cotidiano, seu cronista nato ;)

R. disse...

Bem, gosto de crônicas e vc escreve muito bem(ao meu ver). Mas sabe, pelo meu gosto, ela caia da janela ou algo assim...-risos-
Brincadeiras a parte, é uma história que te faz pensar mesmo, em não deixar algumas coisas bobas barrarem sentimentos belos que estão nascendo. As vezes a gente "aborta" esses sentimentos, por coisas tão bobas...

Até mais...