A dança da alegria

A dança da alegria - CA Ribeiro Neto

quinta-feira, 12 de março de 2009

Loucura

Em comemoração ao aniversário do meu blog, posto, pela primeira vez, um texto que não é meu. 'Loucura' é uma crônica de Mário Prata - para mim, um dos maiores cronistas brasileiros - e está entrando aqui em meu blog por falar um pouco sobre a arte de escrever e além disso, ele utiliza um recurso que eu gosto e uso muito: a de imaginar como é a vida de alguém que desconheço.

Loucura


O melhor da Terapia é ficar observando os meus colegas loucos. Existem dois tipos de loucos. O louco propriamente dito e o que cuida do louco: o analista, o terapeuta, o psicólogo e o psiquiatra. Sim, somente um louco pode se dispor a ouvir a loucura de seis ou sete outros loucos todos os dias, meses, anos. Se não era louco, ficou. Durante quarenta anos, passei longe deles. Pronto, acabei diante de um louco, contando as minhas loucuras acumuladas.

Confesso, como louco confesso, que estou adorando estar louco semanal. O melhor da terapia é chegar antes, algumas minutos e ficar observando os meus colegas loucos na sala de espera. Onde faço a minha terapia é uma casa grande com oito loucos analistas. Portanto, a sala de espera sempre tem três ou quatro ali, ansiosos, pensando na loucura que vão dizer dali a pouco. Ninguém olha para ninguém. O silencio é uma loucura.

E eu, como escritor, adoro observar pessoas, imaginar os nomes, a profissão, quantos filhos têm, se são rodaríamos ou leoninos, corintianos ou palmeirenses. Acho que todo escritor gosta desse brinquedo, no mínimo, criativo. E a sala de espera de um "consultório médico", como diz a atendente absolutamente normal (apenas uma pessoa normal lê tanto Paulo Coelho como ela), é um prato cheio para um louco escritor como eu.

Senão, vejamos:

Na última quarta-feira, estávamos eu, um crioulinho muito bem vestido, um senhor de uns cinqüenta anos e uma velha gorda. Comecei, é claro, imediatamente a imaginar qual seria o problema de cada um deles? Não foi difícil, porque eu já partia do principio que todos eram loucos, como eu. Senão, não estariam ali, tão cabisbaixos e ensimesmados. O pretinho, por exemplo. Claro que a cor, num pais racista como o nosso, deve ter contribuído muito para leva-lo até aquela poltrona de vime. Deve gostar de uma branca, e os pais dela não aprovam o casamento, pensei. Ou será que não conseguiu entrar como sócio do "Harmonia do Samba"? Notei que o tênis estava um pouco velho. Problema de ascensão social, com certeza. O olhar dele era triste, cansado. Comecei a ficar com pena dele. Depois notei que ele trazia uma mala. Podia ser o corpo da namorada esquartejada lá dentro. Talvez apenas a cabeça. Devia ser um assassino, ou suicida, no mínimo. Podia ter também uma arma lá dentro. Podia ser perigoso. Afastei-me um pouco dele no sofá. Ele dava olhadas furtivas para dentro da mala assassina.

E o senhor de terno preto, gravata, meias e sapatos também pretos? Como ele estava sofrendo, coitado. Ele disfarçava, mas notei que tinha um pequeno tique no olho esquerdo. Corno, na certa. E manso. Corno manso sempre tem tiques. Já notaram? Observo as mãos. Roía as unhas. Insegurança total, medo de viver. Filho drogado? Bem provável. Como era infeliz esse meu personagem. Uma hora tirou o lenço e eu já estava esperando as lágrimas quando ele assoou o nariz violentamente, interrompendo o Paulo Coelho da outra. Faltava um botão na camisa. Claro, abandonado pela esposa. Devia morar num flat, pagar caro, devia ter dívidas astronômicas. Homossexual? Acho que não. Ninguém beijaria um homem com um bigode daqueles. Tingido.

Mas a melhor, a mais doida, era a louca gorda e baixinha. Que bunda imensa. Como sofria, meu Deus. Bastava olhar no rosto dela. Não devia fazer amor há mais de trinta anos. Será que se masturbaria? Será que era esse o problema dela? Uma velha masturbadora? Não! Tirou um terço da bolsa e começou a rezar. Meu Deus, o caso é mais grave do que eu pensava. Estava no quinto cigarro em dez minutos. Tensa. Coitada. O que deve ser dos filhos dela? Acho que os filhos não comem a macarronada dela há dezenas e dezenas de domingos. Tinha cara também de quem mentia para o analista. Minha mãe rezaria uma Salve-Rainha por ela, se a conhecesse.

Acabou o meu tempo. Tenho que ir conversar com o meu psicanalista. Conto para ele a minha "viagem" na sala de espera. Ele ri, ri muito, o meu psicanalista.:

- O Ditinho é o nosso office-boy. O de terno preto é representante de um laboratório multinacional de remédios lá no Ipiranga e passa aqui uma vez por mês com as novidades.
E a gordinha é a Dona Dirce, a minha mãe. E você não vai ter alta tão cedo..."


Mário Prata

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* É lendo crônicas como essa que percebo como ainda tenho muito o que aprender!
* Grupo Literário APPLE agora às segundas-feiras.
* Só isso, por hoje!
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ESCUTANDO NO MOMENTO: Gente Humilde - Chico Buarque e Vinícius de Morais

Boa Sorte

7 comentários:

Hermes disse...

Eu não estava curtindo muito, até chegar o final. HAUHAA. O Final é muito bom, esse narrador personagem é irritante. Bisblilhoteiro! Costume feio, Carlim, safado ahuahauhaa. Mas ótima crônica, o final vale a pena.

Filho Eterno disse...

no mínimo hilário!

Thiago César disse...

preguiça de ler, depois tu me conta!

Imcompreendida disse...

Gostei muuuuuuuuuito da cronica, também imagino a vida alheia, mas acho q não viajo tanto...

Olha eu aqui, pra ninguém mais reclamar... rsrrs Leu o meu texto?

Te amo!!

beiiiiiiiiijo

Pedro Gurgel disse...

UUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUTA QUE O PA$%#!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


que texto comédia mah, esse é muito bom mermo!! \o/

bem postado!

Vivi Lima disse...

Amo Mário Prata, mas estou com um problema, sou uma louca ao quadrado, analista e analisada!!! Kkkkkkkkkkkkkkkk...

Paulo Henrique disse...

Muito massa o texto. Bem coloquial.