A dança da alegria

A dança da alegria - CA Ribeiro Neto

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Meio cinza, meio bege

No segundo texto da série 'Sociedade', um texto social, que as vezes pode parecer sarcástico, mas não o é. 'Meio cinza, meio bege' é um de meus textos preferidos do livro que estou concluindo intitulado 'Meio humano, meio urbano', acho que pela comparação dos títulos percebe-se a importância dessa crônica para o livro todo. Para quem reclama da falta de descrição em meus textos, será mais contemplado nesse!

Meio cinza, meio bege



Dona Alma chega em casa com a notícia. As destinatárias, suas filhas Beth, de oito anos e Alcione, de cinco. Duas meninas com a cara da mãe, não dá nem para negar que são filhas biológicas. As três tem a pele de cor esquisita. Elas são pardas, mas não é só isso que conta, pois, o sol cora e a desnutrição empalidece. Se esses dois fatores se anulassem, então elas continuavam pardas, mas não é bem assim, então elas ficam com uma cor esquisita, meio cinza, meio bege. É difícil explicar.

Todas as três são magras, mas a Dona Alma tem uma certa elevação na barriga devido a cervejas. Alcione sonha ser atriz. Beth sonha ser cantora. A mãe sonha com o casamento das filhas. Mas, na verdade, os sonhos das três são o mesmo. Elas querem sobreviver. Querem sair da situação de miséria que se encontram.

Os sonhos das meninas de serem famosas são difíceis. A pele delas atrapalha. Não importa se Alcione não sabe fingir. Nem mentir. Não importa se Beth não sabe cantar. Gasguita como ela só. Isso realmente não importa. A pele delas é que lasca. Negro está na moda, então os excluídos agora são os pardos, ainda mais quando se é meio cinza, meio bege.

Onde moram também não está em melhores condições. A parede é bege, do barro e o telhado é cinza, do amianto. A enfermeira e o líder comunitário já disseram para trocar esse último, mas para colocar o quê no lugar? Com telha mesmo é que não dá. Vai deixar de comprar comida pra comprar telha? Se ao menos tivesse o dinheiro pra comida.

Falando em teto, o cabelo das três são tratados de forma igual. O mesmo sabão e o mesmo condicionador. Melhor comprar o condicionador do que o xampu, porque aquele facilita na hora de pentear. Ah, o cabelo também não ajuda nos sonhos. Muito menos os joelhos, sempre encardidos, de partes escuras, meio acizentas, e claras, begeadas. São essas ladeiras que as fazem tombar sempre. Principalmente quando chove.

A chuva atrapalha a vida delas. Deve ser por isso que a enfermeira e o líder comunitário querem que troquem o telhado, pois sempre que chove, faz um barulho danado, sem falar que tem uns furinhos. Pior ainda se uma delas adoece, é fila que não acaba mais. É melhor levar na rezadeira, dá soro caseiro e depois deixar a enferma de repouso. Ao menos água, sal e açúcar não falta em casa.

O pai das crianças só vai pra casa pra dormir. E é dormir mesmo. Chega tarde, bêbado, e sai cedo, de mau humor. Não fala com as meninas, e muito pouco com a Dona Alma, dá um tapa na bunda dela e sai. O tapa na bunda substitui o “tchau”. Atualmente ele se considera negro, devido a comparação de pele com novos negros mundialmente conhecidos. Mas antes disso, ele era pardo, meio cinza, meio bege também.

Mas sim, o recado: morri. O remetente, o pai. Dona Alma não sabia como falar. Não ia fazer diferença, elas não tinham contato real com o pai, mas o carinho televisivo sempre existe. Algum choro há de cair. Ela contou, Alcione chorou.


CA Ribeiro Neto
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* Espero que entendam esse final, estou frustrado com o pessoal não entendendo o final dos meus textos... hehehehe
* Nada demais.
* www.aondeeuestavamesmo.blogspot.com
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ESCUTANDO NO MOMENTO: Sina de Caboclo - Nara Leão, Zé Kéti e João do Vale

Boa Sorte

7 comentários:

A moça da flor disse...

os finais não precisam ser finais, na verdade os prefiro assim em aberto. Nada no mundo é final, nem mesmo a morte, sempre ela gera algo.Afinal nem que seja o alimento pros decompositores, mas bem sabemos que não só, todo evento o homem trata logo de inserir cultura nele...
mas enfim...
agora sobre o texto todo...
adorei!!!
o melhor texto em prosa que li seu até agora!
Sim! sou uma dessas pessoas maníacas por descrição xDD
realmente não ficou nada a desejar em descrição. Amei a forma como você abordou as cores. Acho que foi o ponto principal do texto né? consegui sentir através delas todo o sofrimento que acho que você tava tentando passar!
Resumindo! Muitíssimo bom!

Beijos!!! ;*

Thiago César disse...

beh isso, deixa de comprar comida e teto pra comprar sabão e condicionador pros cabelos eh?
hahai... vaidade eh foda!
"a pele delas é que lasca" axei engraçado, mas teve uma brusco deslocamento na linguagem do texto.

Imcompreendida disse...

Nossa, Carlinhos!!! desde maio que não te leio, mas agora li tudo de uma vez só... rsrrs adorei, principalmente os poemas do Wallace e a História de Maciel, morri de pena dele tadinho... rsrrs Essa "Meio bege, meio cinza" eu já conhecia e gosto tb...
beiiiiiiiiiiijo

Marcella disse...

Me lembra de falar contigo sobre o texto/realidade depois. Não é crítica, é conversa mesmo.
kkkkkkkkkkkkkkkk

Idéias que eu tive ou que terei.

;)

Paulo Henrique Passos disse...

Muito massa. Como se, apesar da situação difícil, triste, representada por duas cores "mortas", os sonhos dessem cor e vida àqueles três seres, principalmente as filhas.

Do final, ainda não consegui interpretar o "carinho televisivo", mas parece-me que as meninas realizaram seus sonhos.

Gi disse...

bem legal..

achei interessante o jeito que vc descreveu essa cor meio ''indefinida''...

Hermes disse...

acho que é melhor ficar com o cabelo limpo e aguentar um pouco as goteiras, ehueh.
E também não entendi o final televisivo.
Lendo de novo, eu percebi que esse texto é altamente esteriótipo, acho que uma vez tu me disse que essa era uma característica da tua literatura. "caricatura"