A dança da alegria

A dança da alegria - CA Ribeiro Neto

quinta-feira, 11 de março de 2010

Que sejam bem felizes: Clara, Cartola e Eu

Encerrando a série 'Nossa Língua Portuguesa', 'Que sejam bem felizes: Clara, Cartola e Eu' é uma crônica que fala da música 'Que seja bem feliz' do Cartola. Ela mereceu destaque por uma percepção minha em relação a conjugação do verbo contentar. Já explico tudo na própria crônica! Como ando discutindo com alguns membros do Blog's de Quinta sobre isso, deixo claro que o narrador desse texto, assim como a grande maioria dos meus textos, são eu-líricos, que as vezes tem características minhas, mas não necessariamente me representam.


Que sejam bem felizes: Cartola, Clara e Eu


Sabe quando você escuta uma música várias vezes, mas só presta atenção em algo peculiar muito depois? Primeiro de tudo, que a música é de um autor que adoro: Cartola; e que a voz é uma das que mais sou apaixonado: Clara Nunes. Isso já serviria para eu ter prestado atenção nela há mais tempo.

O nome da música é 'Que seja bem feliz', e, para mim, o final dela é genial. A música fala de uma despedida, seja de um filho deixando a mãe, seja de um homem nordestino indo 'tentar a vida' no sul, seja de uma mulher deixando a família pelo sonho de ser cantora de rádio, o que for, a música continua sempre bonita.

“Se bom pra você for/ Podes partir, amor/ E que sejas feliz/ E muito bem feliz”. Vejam que no começo vem logo a permissão para a partida. Os versos são pequenos, pois não há muito o que se falar em momentos como esse; e a repetição dos votos de felicidades também mostra o pouco que há para se falar. Isso também lembra que, lendo friamente, parece ser falta de rima; mas quem nunca repetiu uma frase em um momento de emoção que atire a primeira pedra. São essas frases repetidas que fotografamos em nossas mentes.

“Que Deus e a natureza/ As aves nos seus ninhos/ As flores pela estrada/ Perfumem todos os caminhos”. Quando li essa segunda estrofe, lembrei-me de colorir as coisas. Assim penso que pensou Cartola, e que penso que pensou o eu-lírico, como se fosse para mostrar ao receptor a veracidade do desejo de felicidade, apesar da dor da separação.

“Eu aqui ficarei/ Por você rezarei/ Todas as tardes/ Ao bater, Ave-Maria”. A terceira estrofe, assim como a quarta, foram as que chamaram a minha atenção. Pois o último verso propositalmente me dá duas interpretações. Ao bater o quê? Todas as tardes, o sino da igreja para se rezar Ave Maria? Ou eu-lírico fala do bater da saudade, todas as tardes, ao lembrar de como é bom ter aquela pessoa ao pôr do sol, e a Ave Maria é uma interjeição utilizada pelo sentimento para dá aquela travada na garganta?

“Que sejas bem feliz/ E leves-me na mente/ Que cresçam suas glórias/ E as minhas lágrimas contentes”. Bem, o último verso dessa última estrofe foi a que achei mais genial, porque foi utilizando da boa gramática que ele chegou a um magnífico duplo sentido. A primeira ideia que se tem é de que, com as glórias alcançadas, as lágrimas dela sairiam contentes, felizes, realizadas. Porém, escutando e percebendo semelhanças comigo, percebi que esse 'contentes' também pode ser o presente do modo subjuntivo do verbo contentar. Daí a interpretação mudaria de figura, pois estaríamos falando que o receptor teria que se contentar com as lágrimas do eu-lírico daquele instante, pois uma vez saindo de casa, aquelas lágrimas seriam as últimas lembranças. Fotografei: aquelas lágrimas seriam as últimas lembranças.

Não sei se Cartola quis mesmo fazer esse duplo sentido, mas parece-me que Clara passou isso em sua interpretação, pois não tem como dizer que é qualquer uma das possibilidades só de escutá-la. Inexplicavelmente ela consegue passar todas as situações, tudo de uma vez. Isso só mostra que Clara Nunes é uma deusa, que Cartola é um rei, e que eu só sei fazer crônica.


CA Ribeiro Neto
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* Próxima semana relembrarei do NEM aqui no Blog!
* Por enquanto, nada demais!
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ESCUTANDO NO MOMENTO: Recado - Gonzaguinha - CD Geral
LENDO NO MOMENTO: Almanaque Armorial - Ariano Suassuna - Pg. 275.
Boa Sorte

7 comentários:

.:. AuruS .:. disse...

Adorei. Até baixei a música depois dessa crônica. Gostei do final também. "Clara Nunes é uma deusa, Cartola é uma rei, e que eu só sei escrever crônicas."

Crônicas muito boa por sinal.

Paulo Henrique Passos disse...

Eu não conheço a música, mas vou procurar conhecer, vou ver se eu gosto - essa tua crônica já foi um incentivo, ela mostra o quanto a música é bem sugestiva, o que é proprio da boa poesia.

Marília Maia disse...

Belo texto... Tb não conheço essa música... mas, prometo que depois irei escuta-la.

Beijão!

;)

Pedro disse...

MAcho, não vou mentir, pra não morrer tostado: faz tempo que não leio uma crônica boa assim!!!

Cartola foi o gênio da música brasileira!! Gostei muito, vou até baixar a música!!!


Quanto a Ave Maria, penso que seja por causa da hora do ângelo, visto que sempre, às 6:00 e às 18:00, se reza (eoricamente) a ave maria..


"quando batem as seis horas..." Luiz Gonzaga

Gi disse...

é verdade, carlinhos..

eu, que não conheço a música, deu vontade de baixá-la para conhecer...

gostei!

Thiago César disse...

nao sou expert em gramatica, mas axo q se fosse "contentes" do verbo contentar, o verso teria q ser "e com as minhas lágrimas, contente-se"

e no titulo, "clara" e "cartola" inverteram as posições, mah! hehe...

Francisco disse...

Conheço esta música desde rapazinho,hoje já estou entrando na maturidade,ávido por conhecer a obra da MAIOR SAMBISTA que o Brasil teve,e que JAMAIS aparecerá ou FICOU outra igual,e penso que esta canção não deve nada à obra-prima de Cartola,AS ROSAS NÃO FALAM.
Parabens pela beleza do texto e pela lembrança destes dois ícones da Música Popular Brasileira.